"A televisão hoje em dia já não me cativa muito"
Carolina Morais
27.NOV.2015

Manuel Marques é um dos Donos Disto Tudo. Tem 40 anos, é fascinado por política, pelos portugueses, pelo The Voice e por... legos. Connosco, recupera memórias de infância e dos tempos de Herman SIC, onde se fez humorista. Depois d' O Pátio das Cantigas, regressa agora ao grande ecrã com a comédia O Leão da Estrela. Mas confessa-nos que, no futuro, gostaria de fazer "um dramalhão".

Depois de um período em que não sabíamos quem eram os donos disto tudo, pode dizer-se que só nos resta o humor?

[risos] Sim, o que nos resta mesmo é o humor. Há sempre duas versões da mesma história, até me lembrei agora do filme do Woody Allen, Melinda e Melinda, que conta a mesma história sob o ponto de vista dramático e sob o ponto de vista cómico. Eu prefiro ver as coisas do ponto de vista cómico. Com a situação política atual, e com tudo o que se passa, a minha função é ver as coisas dessa forma.

O humor político ajuda a manter as pessoas mais interessadas na política ou, pelo contrário, distrai-as ainda mais?

Não, eu acho que acorda muitas consciências. A nós, aos portugueses, falta-nos um bocadinho a consciência política, não é por acaso que temos uma taxa de abstenção de 40 e tal por cento. Temos que perceber que podemos escolher quem manda nisto tudo e talvez nas próximas eleições já não haja uma taxa de abstenção tão grande.

Portanto, o Donos Disto Tudo vem ajudar nesse sentido.

Sim, sim. O Donos Disto Tudo também desempenha esse papel.

O programa vai já no sexto episódio [emissão de 21 de novembro]. Qual o balanço até agora?

É maravilhoso. Temos estado sempre a crescer e o céu é o limite.

Diz-se que é um formato muito semelhante ao Estado de Graça. É diferente em quê?

Basicamente, pegámos no ponto em que ficou o Estado de Graça e fizemos um upgrade. Temos outro cenário, temos outro formato de estúdio, temos convidados, temos uma nova pessoa no elenco [Joana Pais de Brito]... Acho que é um pouco o Estado de Graça, misturado com os Contemporâneos. É um formato apurado.

Acha que fazia falta esta aposta da RTP no humor?

Claro. Passou-se um ou dois anos sem humor na RTP e o humor tem de fazer parte do serviço público. Fazia todo o sentido que a RTP o trouxesse de volta.

É fácil cair na rotina, quando já se trabalhou tantas vezes com a Ana Bola, o Joaquim Monchique e o Eduardo Madeira, ou há uma maior criatividade?

Eu acho que é mais fácil ter criatividade. Porque nos divertimos muito, somos uma família e somos muito apegados uns aos outros. Nós dizemos que somos "palhaçorros". E claro que não faz sentido fazermos humor sem nos divertimos.

O que é que se aprende com cada um deles?

Bom... Primeiro, aprendi muito com o Herman e a [Maria] Rueff. Já vai fazer 14 anos que entrei para o elenco do Herman SIC e senti o que sente agora a Joana Pais de Brito: caí ali de páraquedas, com pessoas que já eram monstros da comédia e aprendi imenso com eles. Muito, muito, muito... Tudo o que aprendi de comédia foi com eles.

O que acha da estreante deste elenco, Joana Pais de Brito?

A Joana é a prova de como há muito boas atrizes de comédia. Já no programa anterior que fiz com o Eduardo, tivemos também uma bela surpresa com a Gabriela Barros. Agora, com a Joana, está também a ser uma surpresa e é uma mais-valia para o programa. É uma pessoa nova, com sangue novo.

O que é que este programa ainda lhe permite explorar enquanto humorista?

Tudo. Estou sempre a aprender. Não nasci ensinado. Até aprendo com os mais novos, por exemplo com a Joana. Aprende-se todos os dias.

Entre as personagens que costuma interpretar, quais as que lhe dão mais gozo?

As de raiz, ou seja, as que não são imitações, as que são criadas no momento em que escrevemos o texto. Embora as imitações deem mais trabalho e, por isso, também sejam mais desafiantes.

Mas qual é a imitação que mais gosta de fazer?

Todas [risos]. Não... Gosto muito das personagens da política. Lembro-me que no Estado de Graça fazia de Vítor Gaspar, o ex-ministro das finanças, e que demorei algum tempo até chegar lá, até porque tinha que fazer pausas enormes ao ler o texto [risos]. Mas todas elas são um desafio. E há algumas personagens que nem chegamos lá, é quase impossível. Lembro-me por exemplo, há uns anos, quando entrei para o Herman, de fazer uns Globos de Ouro em que tinha de imitar o António Silva. Eu sabia que havia muitos atores a imitá-lo e queria que a minha imitação fosse melhor. Eu era perfeccionista, nessa altura então queria era mostrar serviço. Andei ali dias e dias a ver se apanhava a voz do António Silva, mas no fim acho que correu muito bem.

Esse processo de aperfeiçoamento é feito em frente ao espelho?

Com algumas personagens, não nego que é em frente ao espelho. Mas hoje em dia temos outros mecanismos. Antigamente, tínhamos que requisitar cassetes de vídeo, hoje já temos uma ferramenta maravilhosa que é o YouTube, e temos um telemóvel com o qual podemos gravar a nossa voz, ouvirmo-nos, filmarmo-nos e ver do início. E lá está, pegando outra vez na Joana Pais de Brito, nós temos essa obsessividade em estudar uma personagem. A Joana está sempre com o gravador, com o telemóvel, com os fones... Eu também sou assim, até apanhar o jeito, sou obsessivo, não largo, não largo mesmo. Sou tipo cão de fila [risos].

Este dia 26 de novembro estreou-se O Leão da Estrela. O que podemos esperar deste filme, depois do sucesso que foi O Pátio das Cantigas?

Acho que vai ser outro sucesso. Eu, pessoalmente, gosto mais d'O Leão da Estrela do que d'O Pátio, porque não há tanta gente, é mais intimista, mergulhamos mais na história. N'O Pátio havia muitas histórias paralelas e neste filme centramo-nos mais numa só. Tem mais tensão, é mais engraçado.

Fazia falta apostar neste tipo de cinema português?

O dito cinema comercial português, sim. Sobretudo para levar pessoas ao cinema com cinema português.

O Leonel Vieira é o homem certo para fazer isso?

É. Trabalhar com o Leonel é maravilhoso. Ele é perfeccionista, sabe muito de cinema, muito mesmo, e faz aquilo de que gosta. Eu aprendo imenso do Leonel.

Trabalhou com alguém nestes filmes, com quem já quisesse trabalhar há muito tempo?

O meu ator de preferência português é o Miguel Guilherme e finalmente trabalhei com ele. Tinha feito coisas muito pequeninas com o Miguel Guilherme e, desta vez, fiz uma coisa em grande. Eu amo o Miguel Guilherme, é o meu ator de eleição, mesmo.

O cinema cativa-o tanto quanto a televisão?

[Pausa] A televisão hoje em dia já não me cativa muito. Há poucos programas que me deixam colado ao ecrã. Agora, por exemplo, estou a ver o The Voice Portugal, acho extraordinário. Já tinha saudades de ver um programa assim. Eu também não vejo telenovelas e há dois anos fiquei preso à Avenida Brasil. Achei uma novela extraordinária, porque aquilo era mais do que uma novela, era cinema, tinha uma qualidade superior e era uma lição de representação. E o The Voice é pela qualidade que têm as vozes. Onde é que aquelas vozes estavam? Sobretudo, gosto muito de ver um programa de televisão em que o candidato é a estrela. Não é como noutros concursos, em que o júri os tratava abaixo de cão, humilhava os miúdos. Acho que todos temos direito a tentar a nossa sorte no mundo artístico e este sim, é um bom talent show. Portanto, a televisão cativa-me, mas não me cativa em tudo, uso-a mais para estar informado das notícias. Mas sim, o cinema também me cativa muito, agora até temos o fenómeno do próximo filme do Star Wars, que está a ser uma loucura.

O que é que vê mais em televisão?

Vejo muitas séries e alugo muitos filmes. As séries estão com uma qualidade brutalíssima, estão a sobrepor-se à indústria cinematográfica. Tanto que os melhores atores de Hollywood estão a fazer séries. Há dois anos estive em Los Angeles e, enquanto antigamente se viam grandes cartazes de filmes, agora veem-se de séries.

Quais as suas séries de eleição?

House of Cards, por exemplo. Eu era também viciado no Modern Family, embora agora já não acompanhe muito. Até fui lá fotografar a casa deles quando estive em Los Angeles, ao pé de Beverly Hills [risos]. Vejo também o True Detective, o Fargo... Só não consigo ver tanto quanto gostaria, porque estou com muito pouco tempo.

Fazendo agora uma viagem no tempo. O Manuel em criança já queria fazer as pessoas rir?

Sim, bastante. A pessoa que eu mais fazia rir era o meu avô. Imitava-o e às pessoas todas da família. Era muito tímido, ainda sou, mas quando me dá para o lado da comédia, solto-me. Era o meu escape.

Como é que esse jovem Manuel chegou ao Herman SIC?

Eu vivia em Setúbal, entrei para a Faculdade de Belas Artes, em Lisboa, comecei a fazer Design de Comunicação, mas depois não gostei do curso. Pensei "Não, não é mesmo isto que eu quero fazer. Eu quero fazer teatro. Quero ser ator". E paralelamente fui investindo nisso, ou melhor, os meus pais foram investindo [risos]. Nesse aspeto, foi uma ajuda maravilhosa, os meus pais foram um apoio maravilhoso, porque incentivaram-me e comecei a fazer algumas formações de atores. Mais tarde, fiz um casting para o programa da Maria Rueff [Programa da Maria, em 2001], e fiquei no elenco como ator secundário. Começaram a gostar de mim, fui fazendo cada vez mais coisas e o Herman um dia convidou-me a mim e ao Nuno Lopes para o elenco do Herman SIC.

Quais as melhores memórias que guarda dessa equipa?

O que ficou foram os momentos depois de o programa acabar, em que ficávamos horas a conversar nos camarins com o Herman. Riamo-nos tanto, tanto, tanto... As pessoas não fazem ideia do que nós ríamos. As coisas que o Herman inventava... O Herman é um génio.

Pode dizer-se que o Herman foi o seu mentor?

Sim. O Herman ainda é o meu mentor. Sem dúvida. É o humorista que mais admiro.

Que outros humoristas, nacionais ou internacionais, ajudaram a moldá-lo?

Internacionais, foram os Monty Python, o Woody Allen, o Peter Sellars... E depois o Herman [risos].

É bom ser-se humorista em Portugal, acha que é um país fértil em matéria risível?

É muito fértil. Ainda não temos é o sentido de humor dos ingleses. Aqui ainda não se pode brincar com tudo. O Herman foi determinante na recetividade em relação ao humor. No pós-25 de abril, o Herman fez essa transição e educou o público. E nós, como seguidores do Herman, ainda estamos a quebrar barreiras, porque há coisas com as quais ainda não se pode brincar em Portugal.

Como por exemplo?

A doença, a morte, a religião... Há temas ainda um bocado sensíveis. Nós não temos a capacidade de gozar connosco próprios como os ingleses têm. Vamos tendo, havemos de chegar lá.

Disse numa entrevista que gosta muito de discutir política. Dá-se a esse luxo ou prefere manter a sua opinião bem guardada?

Gosto de discutir política, mas com os meus amigos, em casa. Sou completamente apartidário, não tenho filiação nenhuma, mas gosto muito de discutir política. Lá está, sinto que tenho consciência política e isso é muito importante.

O que acha da atual conjuntura política?

Todo o mundo é composto de mudança. Acho que isto estava prestes a "estourar", previa-se que alguma coisa iria acontecer, uma mudança, uma transição... Não digo uma revolução, mas uma nova etapa da nossa vida política. Acho que isto vai acordar a nossa consciência política, e vai fazer com que fiquemos mais atentos.

Nos dias em que tem menos vontade de fazer rir, onde é que vai buscar a força? À família?

Ao lego [risos]. Tenho uma coleção gigantesca. Eu deixei de fumar há seis anos e para estar entretido voltei a fazer lego, que era uma coisa que eu adorava em criança. Hoje em dia, tenho uma sala inteira cheia de lego, uma cidade gigantesca, com coisas do Star Wars e tudo. E também faço com as minhas filhas.

A sua mulher e as suas filhas são as suas maiores fãs?

São, sim. A minha mulher é também a minha maior crítica. Quanto tem que dizer, diz, e às vezes até fico chateado [risos].

Considera-se um homem caseirinho?

Sim. Já lá vai o tempo das saídas à noite. Uma coisa que gosto muito de fazer, e isso é onde eu gasto melhor o dinheiro, é o meu capricho para além do lego, é viajar. É a coisa que mais me dá gozo, fazer uma bela viagem. Porque é daquelas coisas que já ninguém nos tira. Uma casa o banco pode tirar-nos, um carro desvaloriza-se, uma viagem ninguém nos tira.

Antes deste programa, fez alguma grande viagem?

Fiz no final do Estado de Graça, há dois anos. Eu já conhecia os Estados Unidos do lado de cá, de Nova Iorque, e fui para o lado de lá, da Califórnia. Fiz a Califórnia toda de carro, de Los Angeles até São Francisco, e fiquei completamente apaixonado. Até fui a Las Vegas antes de ir a Los Angeles, achava que não ia gostar e adorei, achei um disparate. Foram 900 e tal quilómetros de carro pela costa e foi uma grande aventura.

Qual é a próxima?

A próxima, talvez Japão - haja dinheiro para isso, claro - ou Nova Zelândia... Também já pensei África do Sul. Não sei ainda.

Que relação mantém hoje em dia com o público? Sente-se mais acarinhado na rua ou nas redes sociais?

Sinto-me muito acarinhado. Eu às redes sociais não ligo muito, porque não são o mundo real. Aquilo não é só o muro das lamentações, é o muro do escárnio e do ódio. Na altura em que fiz O Homem do Saco, como aquilo não era a minha praia, fiquei um bocadinho... Houve pessoas que me diziam "O melhor é fazeres comédia". E a Ana [Martins, a mulher] dizia-me "Não ligues a isso. Vive no mundo real. Isso são pessoas que só sabem criticar". Só que é uma coisa de ator. Eu, por exemplo, se estou a fazer uma peça de teatro, pode estar tudo a rir, mas se estiver uma pessoa no público que não está a rir ou que está muito séria, aquilo afeta-me muito. Portanto, procuro não ligar àquelas manifestações de ódio, à crítica negativa das redes sociais, e guio-me mais pela vida real. E na vida real sou muito acarinhado pelo público.

O que é que lhe dizem mais?

As pessoas falam nas personagens e gostam de me vir cumprimentar, o que é muito bom. Podia dizer "Ah gosto de ter a minha privacidade e tal". Mas estaria a mentir. Acho que toda a gente gosta porque é o reconhecimento, no fundo, do teu patrão. O público é o nosso patrão.

Num dia de folga, onde é provável que encontremos o Manuel Marques?

No Colombo [risos]. Não, estava a brincar. A passear ou no cinema... Não sei, depende da minha disposição.

O que é que ainda lhe falta concretizar, profissionalmente?

Mais cinema, se calhar até uma coisa séria. Um "dramalhão" [risos].

O Manuel Marques é fã de Manuel Marques?

Não. Só de vez em quando. Sou muito crítico, não consigo ter distanciamento das coisas que estou a fazer e do que vejo meu. Não consigo.

Isso acontece com muita frequência, a autocrítica?

Acontece, sim. No princípio, quando comecei a fazer televisão com o Herman, tinha muita dificuldade em ver-me. Hoje me dia já me vejo, mesmo para perceber o que é que posso melhorar. Isso é importante.

E o que é que o faz rir?

Faz-me rir a política, por exemplo. Faz-me rir o futuro da política, porque acho que isto vai andar tudo às turras uns com os outros [risos]. Os portugueses fazem-me rir, são a minha maior inspiração, o Herman faz-me rir, o Woody Allen faz-me rir, situações do dia a dia... Nós temos um país maravilhoso, em todos os sentidos. Só nos falta um bocadinho para sermos extraordinários. Temos tudo para ser um país maravilhoso: temos uma situação geográfica maravilhosa, temos um país com uma paisagem diversificada, temos sol, temos tudo. Nós temos tudo, mesmo.

Fotos: Reinaldo Rodrigues / Global Imagens

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