Ângelo Rodrigues: "Sou um eterno curioso. Preciso sempre de saber mais"
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Raquel Costa
12.NOV.2015

Aos 28 anos, o ator que dá vida a Salomão na novela da SIC "Poderosas" é, cada vez mais, um homem do teatro. Ângelo Rodrigues está atualmente em digressão com a peça Don Giovanni, que chega hoje (12 de novembro) a Leiria

O que tem achado da evolução da sua personagem, o Salomão?

Até agora, estou a gostar muito do percurso delem. Talvez entrem mais umas personagens para o meu núcleo, o que é sempre bom. A entrada de novos atores é uma lufada de ar fresco que nos permite aprender com outras pessoas. A história vai agora sofrer uma reviravolta, nós ainda estamos a receber os episódios porque a equipa de guionistas mudou há pouco tempo.

Terminou no verão a licenciatura na Escola Superior de Teatro e Cinema. Era algo que sentiu que tinha de levar até ao fim para se sentir mais realizado?

Claro que sim! É engraçado ter utilizado essa palavra, "realizado", porque eu vim do curso de Realização de Cinema. Senti que me faltava uma base de sustentação na minha profissão. E depois... lá está, eu sou um eterno curioso. Preciso sempre de saber mais. Não que isso me distinga das outras pessoas da minha geração mas é por mim. Por querer ser mais e melhor. Por exemplo: eu já estava farto de fazer a licenciatura e dizia 'estudos nunca mais!' mas - parece que foi automático! - a partir do momento em que fiquei licenciado fiquei logo a magicar onde vou tirar o meu mestrado daqui a uns anos (risos)!

Então, qual é o plano?

Não é imediato mas talvez o quisesse tirar nos Estados Unidos, em Nova Iorque ou Los Angeles.

Encarna um dos mais icónicos galãs da história em Don Giovanni. Como se preparou para fazer jus a essa personagem?

É um bocado assustador porque é um dos clássicos mais adaptados de todos os tempos e é um dos mitos urbanos que mais se prolonga através das gerações. É incrível, o mito do Don Juan. O facto de ser uma das obras mais adaptadas de sempre e do Paulo Sousa Costa [diretor do projeto] ter querido fazer uma adaptação de todas as adaptações que existiram, mas mantendo a espinha dorsal e a linguagem original, foram as minhas grandes dificuldades. Por um lado, não poder desiludir, por outro manter-me fiel à linguagem, que não é nada próxima da dos nossos dias. Sentia-me, durante o processo criativo, como se estivesse num colete de forças. O texto é mesmo a nossa bíblia e não há tanto aqueles recursos como pode haver num registo mais naturalista de telenovela, como de recorrer ao improviso, com palavras nossas, do nosso tempo.

Acha que todos os galãs, seja do teatro seja da ficção televisiva, têm algo de Don Giovanni?

Agora que estou por dentro de quem ele realmente foi... ele é um sedutor nato. Além de ser um sedutor, ele alimentava-se de colecionar as mulheres. Por isso, é injusto fazer uma metáfora com os galãs dos nossos dias.

Está a fazer teatro em simultâneo com a novela. Como está a correr?

Estamos a começar uma outra fase, a peça acabou no Teatro da Trindade e agora vamos começar uma digressão. Não está definido quanto tempo vai ter mas, pelo menos até janeiro, temos datas em Sintra, Albergaria, Leiria e, talvez, Porto e Funchal. A peça tem sido um sucesso, tivemos duas temporadas em Lisboa e agora o facto das outras câmaras mostrarem interesse é bom para o nosso trabalho. O feedback tem sido ótimo. As pessoas, quando se habituam a ver-nos num registo na televisão, têm por hábito ficar surpreendidas. No teatro há possibilidade de fazer outras coisas que na televisão os estereótipos não nos permitem fazer.

Está a ser difícil conciliar o teatro com a televisão?

É complicado conciliar o teatro com a televisão, principalmente quando a carga horária começa a mexer com o registo de cada personagem. Fazer teatro de quarta a domingo e gravar cinco dias por semana, faz com que esteja há dois meses a trabalhar diariamente, sem folgar. Por exemplo, amanhã [12 de novembro] vou acabar de gravar e vou para Leiria para fazer a peça à noite e às oito da manhã, no dia a seguir, já tenho que estar em Lisboa para gravar. Mas lá está quem corre por gosto não cansa e sou muito abençoado por fazer aquilo que gosto.

Há pouco falava da hipótese de fazer um mestrado nos Estados Unidos. E voltar para o Brasil? Esteve lá a fazer um programa de intercâmbio e participou na série do canal GNT, As Canalhas.

Claro que sim! Acho que não faz sentido que seja um oceano que nos separe tendo nós a mesma língua. Há muitas oportunidades no Brasil, mais ainda porque os artistas estão mais defendidos a esse nível. Têm um sindicato e nós não temos. Os canais de cabo têm uma percentagem obrigatória para ficção do próprio país.

No teatro e no cinema também...

Sim. Enquanto eu estive lá fecharam 35% no cinema, isso é ótimo. Em dez salas, três têm de ter filmes obrigatoriamente brasileiros. Em televisão tem tido uma enorme expansão poder fazer uma série na HBO, FOX. Eles têm de manter o selo de qualidade do próprio canal. É sempre bom para o portefólio e poder trabalhar com outras pessoas e no maior número de coisas. E, 2016 quero voltar lá. Nem que seja para manter esta ponte das pessoas que vou conhecendo lá. E visitar amigos também.

Há cada vez mais atores portugueses a fazerem participações em formatos de televisão e cinema norte-americanos, espanhóis, britânicos. São os atores portugueses que se estão a tornar melhores, é o português que se está a tornar mais sexy para o mercado internacional ou são os profissionais que estão a arriscar mais?

É um bocado fruto da globalização, também. O medo de arriscar, de carregarmos esta cruz de constantemente nos considerarmos inferiores ou menores do que os outros... pelo contrário. Mesmo. O português tem uma enorme facilidade em falar línguas, muito mais do que o espanhol ou o brasileiro. E isso é mais um motivo para não ficarmos cingidos ao nosso território nacional. Temos muito por onde trabalhar, muito que desbravar. Se calhar temos de recuperar o espírito dos Descobrimentos do século XVI.

O Ângelo tem documentado nas redes sociais as viagens que tem feito. O que é que aprendeu nessas aventuras que faz sozinho?

Aprendi a ser mais tolerante com a diferença, a respeitar mais as pessoas, a ouvi-las mais. A cada viagem que faço parece que se abre uma porta no meu cérebro e a minha mentalidade vai-se abrindo cada vez mais. Infelizmente, muita gente por opção ou por causa do mito que viajar é só para ricos, não o faz. Viajar não é só para ricos. Viajar é um estado de espírito. É o querer. Há muitos países em que o dia a dia é mais barato do que aqui. Viajar sozinho é um processo solitário. Se, por um lado, se perdem algumas coisas de partilha, no entanto na partilha também se perdem muitas coisas. Eu sempre fui um adolescente fechado no meu mundo, de absorver as experiências, na minha visão, e transportei isso para a minha vida adulta. Sendo a viagem um processo solitário, apreendem-se as coisas de outra forma.

Qual é o kit de viagem essencial que recomenda para quem viaja sozinho?

Um bom necessaire, umas boas botas, um bom protetor solar e um telefone para estar contactável.

Teve uma experiência na área da música como Angel-O. É um projeto no qual quer voltar a apostar?

O Angel-O enquanto alterego, enquanto persona, ficou na gaveta. Marcou o ano dde 2012 e ficou ali. No entanto, eu continuo a escrever as minhas coisas em casa, não tanto dirigidas para a música neste momento. Mas continuo a escrever, a desabafar, como sempre fiz, desde a minha adolescência. Se eu vou musicar isso, um dia? É provável que o vá fazer com uma ou outra coisa, mas é mais uma questão de exorcismo, não para comunicar. É uma coisa o mais umbiguista possível.

No Verão, esteve em cena no Teatro Nacional D. Maria II em Os Condenados, sobre as pessoas que são assassinadas às mãos do Estado Islâmico. Foi o seu trabalho de final de curso. Como foi a preparação para essa peça sobre um assunto tão atual?

Explorámos a metáfora do que é que uma pessoa pensa nos cinco minutos antes de ser decapitado. O tema em si é muito forte e a preparação foi bastante demorada, até. Demorou um semestre inteiro porque era o trabalho de final de curso. Foi uma honra enorme poder pisar um dos palcos mais conceituados do teatro português. Foi mesmo comovente acabar o meu curso desta forma. Agora estou oficialmente licenciado (risos)!

Ficou com uma perceção mais profunda não só do que é a questão do Estado Islâmico mas também do que, hipoteticamente, sentem aquelas pessoas que morrem às mãos dos terroristas?

Nos vários ensaios, e sempre que estávamos em cena, abríamos e fechávamos a peça da mesma forma: todos de joelhos, cinco minutos, em silêncio, imersos nos nossos pensamentos. É dilacerante perceber que há pessoas que têm o condão de acabar com a vida de outras pessoas desta forma e sairem sempre imunes. Esta coisa do ISIS, que não representa o Estado Islâmico, é uma minoria, parece que, de repente, virou um ícone pop mundial. Já fazem marketing das suas próprias coisas. É incrível como até os terroristas já se servem das redes sociais para se promoverem.

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