"Nunca tive medo de não estar a ir pelo caminho certo"
Global Imagens
O ator Tomás Alves
Márcia Gurgel
15.JAN.2016

Aos 26 anos, o ator Tomás Alves revela que por vezes tem vontade de abanar Dinis, personagem que interpreta em 'Poderosas', da SIC, e elogia o enredo da novela. Admite que no meio artístico há lutas de egos, mas frisa que não seria capaz de ter um emprego rotineiro, das nove às cinco

Na novela Poderosas dá vida a Dinis, um jovem íntegro, determinado e muito apaixonado. Identifica-se com esta personagem?

Acho que o Dinis tem essas características de forma acentuada. Eu próprio quando estou a fazer algumas das cenas tenho vontade de abaná-lo um bocadinho. Mas sim, identifico-me com ele porque também me considero uma pessoa correta e com princípios.

Considera que as personagens acabam por ter algo do ator que as interpreta ou são duas coisas distintas?

Somos sempre nós a fazer a personagem. As personagens não têm só a nossa imagem, a nossa cara e a nossa voz. Têm também um bocadinho de nós visto que emprestamos um bocadinho das nossas opiniões, e defendemos as nossas personagens com os nossos instintos. Ainda que seja com base num texto que já está escrito, coordenado por diretores e várias outras pessoas, é um trabalho que tem sempre algo de nós.

Como é que preparou ou como é que se inspirou para dar vida ao Dinis?

Normalmente não tenho grandes construções nas minhas personagens. Menos ainda em televisão porque o fator tempo não ajuda a construir um papel muito aprofundado, o facto de os textos serem enviados diariamente faz com que o ator vá ao sabor daquilo que escrevem. O meu instinto é uma grande ferramenta que eu uso, bem como o conhecimento da história e da personagem e do contexto em que ela está inserida. Isso tudo ajuda-me a delinear as bases de uma personagem.

Trabalha há cerca de dez anos da televisão e agora tem um papel de protagonista. Já começava a ambicionar um papel com este destaque?

É sempre bom sentir que estão a apostar em nós enquanto atores. Mas é uma coisa que varia bastante. Hoje podemos ter um papel de protagonista e amanhã um de menos destaque. Mas é sempre bom haver esse voto de confiança e é também uma responsabilidade acrescida porque a história acaba por girar em torno da nossa personagem. Mas gosto sempre de trabalhar com o que me propõem. Não sei se já pensava nisto há muito tempo, acho que não. Gosto de ir ao sabor do vento nestas coisas.

Encara este papel como uma oportunidade na sua carreira?

É normal que chegue a mais pessoas e que o meu trabalho seja mais visto. Mas encaro-o como qualquer outro trabalho. A minha disponibilidade e a minha vontade são sempre as mesmas.

O que tem sido mais desafiante neste papel?

Precisamente o facto de o Dinis ser demasiado íntegro. Às vezes é preciso deixarmos a nossa opinião sobre a coisa e defendermos a personagem com aquilo que o texto nos dá, com aquilo que a personagem é. Tenho de ter cuidado para não torná-lo numa pessoa simplesmente mole. Tem de ser uma pessoa com os seus princípios, mas tem de ter alguma força. Ao longo da história ele vai passando por alguns acontecimentos que vão fazer despoletar um bocadinho mais uma raiva e uma agressividade que ele tem contida.

A novela Poderosas gira em torno de uma vingança coletiva contra um homem, José Maria, interpretado por Rogério Samora. O que acha deste enredo?

É um enredo interessante. À partida pode não ter grandes voltas a dar, mas se continuarmos a ver e a alimentar esta história há sempre coisas que as três protagonistas [Joana Ribeiro, Soraia Chaves e Maria João Luís] podem fazer. É uma novela que também fala de amor, da força de guardarmos segredos, e muitas vezes esses segredos até têm mais força do que nós. Essa luta e essa tensão é muito interessante.

Como tem sido o feedback do público ao Dinis?

Tem sido muito bom. Muitas vezes dizem-me mais que detestam o José Maria do que propriamente do Dinis. É sinal de que a personagem dele está mesmo a ser bem feita, porque as pessoas ficam mesmo inquietas com ele. Mas tem sido positivo. Sinto que é uma personagem que chega a mais pessoas, tenho mais abordagens, e são positivas. Houve uma pessoa uma vez que me disse: 'Gosto de o ver porque transmite-me calma, conforto'. E muitas vezes não é esse o nosso estado de espírito por causa das correrias, das gravações, do texto, dos nervos. E é bom saber que isso passa.

No confronto direto, Poderosas não tem conseguido superar a audiência de Santa Bárbara, exibida na TVI. O que falta a esta novela para cativar mais os espetadores?

Não sei. Não costumo ser um espetador assíduo e não costumo estar muito ligado às audiências. Limito-me a fazer a minha parte. Não sei o que poderia mudar, muitas vezes estas coisas não têm grandes razões. As pessoas ou gostam ou não gostam, é legítimo. Se tivesse uma ideia do que poderia resultar acho que já teria falado com alguém.

RTP, SIC e TVI têm apostado cada vez na produção de ficção nacional. Acha que a quantidade tem conseguido acompanhar a qualidade?

Depende do projeto. Depende dos moldes em que são feitos, mas é possível que numa vontade de fazer mais haja menos cuidado. Mas eu não tenho sentido essa diferença e já trabalho em televisão há alguns anos e acho que isso não se reflete. Mas acho que é positivo porque há mais pessoas a trabalhar nisto, há mais pessoas a serem envolvidas por estas histórias. Parece que estamos finalmente a acreditar no nosso produto, a fazer coisas em português e a fazê-las cada vez melhor.

A carreira de um ator é marcada pela incerteza, nunca se sabe qual será o próximo projeto e quando será. Essa incerteza assusta-o ou, por outro lado, gosta dessa adrenalina?

Eu não me imagino com um trabalho das nove às cinco, com uma rotina ao longo de vários anos. Mas é claro que há sempre algumas inseguranças. Não sei o que é que o futuro me reserva, mas habituei-me a não pensar muito nisso e a acreditar que vai correr tudo bem.

Quando e como é que descobriu que queria ser ator?

Ainda não não tenho a certeza (risos). Estou a brincar. Foi um processo natural. Quando tinha 14 anos inscrevi-me num curso de teatro de uma escola onde a minha mãe dava aulas. Os professores desse curso eram finalistas do curso que eu acabei por fazer mais tarde, na Escola Profissional de Teatro, em Cascais, e foi uma entrada natural e fluida. Fiz todas as provas para a escola, entrei no curso, e desde aí que tenho tido trabalho. O trabalho é que me faz acreditar que eu devia ser ator. Mas nunca tive assim uma vontade desde criança, foi acontecendo. Felizmente.

Contou com o apoio da sua família, ou preferiam que tivesse escolhido uma profissão "mais tradicional" por assim dizer?

Se preferiam nunca mo disseram. Acredito que não, eles apoiaram-me sempre. Estas minhas escolhas, apesar de ao acaso, sempre foram apoiadas por eles. Nunca tive medo de não estar a ir pelo caminho certo. São pais babados, gostam de mostrar que são presentes e de acompanhar o meu trabalho.

O meio artístico é propício a egos e a invejas ou isso é um mito?

O mais possível. Há algumas lutas de egos porque é um trabalho que mexe com a imagem e se isso não for bem gerido pode dar origem a alguns problemas. Mas faz parte, em todos os meios é um bocadinho assim, mas neste é de uma forma um pouco mais acentuada.

E lida bem com isso?

Lido. Todos nós temos as nossas inseguranças, tento é que isso não deixe afetar o meu trabalho. Não é a minha preocupação principal, é algo secundário.

Portugal voltou a ter um ministério da cultura. Sente que a classe dos atores está mais protegida desta forma?

Eu espero que sim, em breve vamos ver os resultados. A cultura faz falta a toda a gente, a todos os povos, a todas as culturas. É o que nos distingue uns dos outros e acho que é muito importante.

Considera que nos últimos anos a cultura tem sido maltratada nos últimos anos?

De alguma maneira sim. As faltas de apoios fazem com que alguns projetos não sigam em frente. Espero que todas pessoas que vivem deste meio tenham melhores condições. Não só é um meio que põe a trabalhar muitas pessoas como faz bem ao país.

Lida bem com a fama e com a exposição a que um ator está sujeito?

Sou um pouco tímido, mas lido bem, desde que não me forcem a fazer coisas contra a minha vontade.

Além da representação, quais são as suas outras paixões?

É a música. Já toca há alguns anos e quero continuar a conseguir conciliar a música com a representação. É uma linguagem universal sobre a qual eu sinto que me expresso mais facilmente. Sinto que não há tanta pressão. Estar em palco a tocar ou a representar é bastante diferente. A representar tenho de seguir um texto, de contracenar com alguém. Na música também há isto, mas é mais natural. Posso mais facilmente ser eu com a música.

Já tem algum projeto agendado para quando terminarem as gravações de Poderosas?

Para já descansar e também gostava de viajar para a América Latina.

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