"Os portugueses têm de valorizar mais a música portuguesa"
Carolina Morais
23.NOV.2015

O dono de êxitos como Não me Toca ou A Única Mulher vai estar no Meo Arena a 5 de dezembro e no Multiusos de Guimarães, a 19. Aos 34 anos, Anselmo Ralph divide-se entre Portugal e Angola, é pai de dois filhos e convive com uma doença progressiva que lhe afeta a visão. À NTV, recorda os 1001 empregos que teve nos EUA, fala sobre a famosa banda de rock latino e deixa escapar alguns elogios aos restantes mentores do The Voice: Mariza, Mickael e Aurea.

Anselmo Ralph é um fenómeno da música, da televisão, do entretenimento. E para si, quem é?

Falar de mim fica complicado [risos]. O que eu posso dizer é que não é nada fabricado. Eu tento ser o mais normal e simples possível. Não sou diferente daquilo que sou em casa. As pessoas estão cansadas do falso e vão procurando as coisas mais genuínas. Hoje, é a oportunidade de pessoas como eu, sem tiques de estrela, de fazer algum sucesso. Se me perguntarem quem é o Anselmo Ralph, digo que somos todos nós. Às vezes até penso que sou demasiado simples, que devia ter uma mania qualquer para as pessoas comentarem. Mas não vale a pena inventar [risos]. Não vão encontrar fofocas interessantes sobre mim. Então, acho que acabo por ser a representação de muita gente.

Prepara-se para subir a dois grandes palcos, em Lisboa e em Guimarães. O que podem os fãs esperar destes concertos?

Muitas surpresas. Nos primeiros Meo Arena que fiz, tive muitos convidados e muita gente "reclamou" porque queria ouvir mais o Anselmo Ralph. Agora, vamos mudar a produção dos concertos, temos música nova e vamos tentar surpreender. Aliás, esse é o meu lema e o de toda a produção: "Vamos fazer ovo estrelado com ovo já cozido". Ou seja, é algo que as pessoas já viram, mas com a mesma coisa vamos fazer algo diferente. E este Meo Arena acaba por ser mais desafiante, porque não existe um álbum de originais novo. Mas tinha de o fazer porque no próximo ano, devido ao contrato que tenho com a Sony Iberia, começo a trabalhar mais para Espanha. Tinha que compensar o público português.

Porque acha que a sua música se tornou num fenómeno, tanto em Angola como em Portugal?

Para ser sincero, eu acredito muito em Deus, sou um homem crente. Não é a diferença que faz o sucesso. Eu acho que não houve nada em mim, em termos de trabalho, que tenha contribuído para o sucesso, porque acredito que há artistas com melhor sonoridade, que cantam nas horas melhor do que eu, artistas que se calhar trabalham três vezes mais do que eu trabalho, mas mesmo assim acabam por não ter este sucesso. Acho que veio mesmo de lá de cima, foi o Pai Grande, como dizem os angolanos, que decidiu 'Agora é a tua vez de brilhar'. E tenho estado a aproveitar com o maior respeito e humildade possível.

A verdade é que todo este sucesso acabou por o levar ao The Voice. É um programa que o emociona?

Sim, não tem como não ficar emocionado. É a forma como a própria plataforma do The Voice está concebida. Confesso que fiquei um pouco de pé atrás com o convite, porque nunca tinha feito programas de televisão. Para entrevistas, já era o que era... Principalmente depois de ter vivido uns tempos nos Estados Unidos, quando voltei para Angola o português estava um pouco arranhado, então muitas das vezes preferia ficar calado [risos]. Até houve uma vez, há uns anos, numa entrevista, em que alguém ligou para a rádio e disse 'Olha, cantas melhor do que falas'. E eu 'Fogo, obrigado pela dica, vou ficar mais calado' [risos]. Então sempre tive este medo, de poder atirar algumas gafes. Por isso é que este convite do The Voice me deixou de pé atrás. Não sei porquê, mas aceitei-o. Conhecendo-me, aquilo foi mesmo Deus que me empurrou. Atirei-me de cabeça e não podia ter corrido melhor.

Tem destronado a TVI em audiências. Quais os ingredientes deste formato que tornam isso possível?

Primeiro, é um programa muito bem concebido. Segundo, é a produção. Eu já tive oportunidade de perguntar ao próprio diretor da Shine [Iberia, produtora]: 'Oh Hélder [Marques], como é que conseguiste reunir tanta gente de bom caráter?'. É muito difícil encontrar 20 gajos bons no mesmo sítio. É realmente isso que se vive nos estúdios do The Voice. Não é tenso, é uma coisa muito relaxada, a produção está sempre com um sorriso e nós, mentores, acabamos por ter a vida muito facilitada, com a produção a dar-nos colo. O terceiro ingrediente são os concorrentes, a qualidade dos concorrentes é que faz o programa. E depois então os mentores.

Sente alguma pressão adicional por ter ganho a edição anterior?

Posso ser competitivo, mas divirto-me tanto naquele programa que às vezes esqueço-me que estamos a competir. Acho que só vamos começar a sentir mais a pressão nas galas, porque nas Provas Cegas e no Tira-Teimas estamos mais no gozo, a preparar partidas uns aos outros. Embora eu tenha ganho a primeira edição, a verdade é que sem o Mickael, sem a Mariza, sem o [Rui] Reininho, eu lá sozinho não teria feito um programa com tanta qualidade. Aliás, não ia ser possível, ia ser o programa menos visto de sempre [risos].

E como é trabalhar com a Aurea, a Mariza Liz e o Mickael Carreira?

A Aurea é nossa cassula, a caloira [risos]. É uma pessoa de fácil tato, bastante afável. E entre nós os três, já é a segunda vez que estamos a fazer isto juntos, por isso existe uma grande cumplicidade. Agora já compreendo porque é que as pessoas fazem novelas e programas durante tanto tempo com uma certa equipa, depois quando têm que deixar de o fazer sentem saudades. Se eu amanhã já não tivesse que fazer o The Voice, iria sentir saudades de muita gente, principalmente dos mentores: da Mariza, daquele génio forte, é extrema para tudo, extrema para o amor, extrema para a luta, refilona... e do Mickael, que tem aquele lado galã, quer sempre parecer bem na fita e fica sempre sem jeito quando gozo com ele.

Quem acha que lhe vai dar mais luta até à final?

Eu vou confessar uma coisa... o Mickael tem uma concorrente, a Deolinda, que é fantástica. Mas acho que a Mariza é a que vai ficar com a melhor equipa. Isso é inquestionável. Ai mas isso eu nem devia dizer [risos].

Acha que a televisão, e a RTP em particular, desempenham hoje um papel essencial na promoção de novos talentos?

Sim. A RTP faz o seu papel, mas as editoras agora têm que fazer o delas. Eu sou estrangeiro, embora já seja da casa, e eu vindo de fora tinha a perceção que Portugal não tinha assim tanto talento, que havia muita música em inglês, muita música de artistas internacionais. Eu na altura disse 'Pronto, se eles não têm muito talento cá, 'bora ouvir de fora, tem que se remediar com alguma coisa'. Mas quando fui para o The Voice, pensei 'Epá, não percebo porque é que estes gajos não estão a cantar, porque é que não estão na rádio ou a fazer concertos'. Na verdade, os próprios portugueses é que têm de valorizar mais a música portuguesa. Embora isso possa prejudicar-me a mim, acho que os portugueses têm que começar a despertar mais para os seus artistas.

Com que idade se apercebeu de que queria seguir carreira na música?

Acredito que foi por volta dos 12 anos. Tive a minha primeira banda aos 14, gravei o meu primeiro CD numa banda de hip hop aos 15 anos, mas foi a partir dos 12 que comecei a pensar em termos profissionais.

Esse arranque foi dificultado pelo aparecimento da sua doença [miastenia grave]?

De certa forma foi, porque não me deixava ser artista, não me deixava exteriorizar. Gravei o primeiro CD, mas depois andei muito tempo estagnado, ficava apavorado só de pensar que ia subir a um palco ou que ia à televisão. Depois fui para os Estados Unidos, comecei a investir na música e aos 25 anos pensei 'É pegar ou largar'. E acabei por pegar.

Alguma vez sentiu preconceito de pessoas da indústria?

[Pausa] Eu às vezes sou muito distraído quando me dizem ou fazem coisas. Acho que quando estás a caminho de concretizar um sonho, coisas más têm que acontecer. Primeiro, para desenvolver em ti o "querer", e também para se tornar saboroso quando conseguires. Tudo o que se consegue fácil, não se valoriza. É como o dinheiro, se o ganhamos com suor, com sacrifício, gastá-lo e geri-lo depois sabe bem melhor. Se aconteceram coisas más, garanto que não guardo nenhum ressentimento. Mas isso também é por ser uma pessoa crente, detesto ter que ir dormir e acordar a pensar em algo que alguém me fez. Acho que perdemos muito tempo e energia com essas coisas.

Hoje em dia, a doença atrapalha-o ou condiciona-o de alguma forma?

Desde os cinco anos que vivo com isto, portanto já é natural, não conheço outra forma de viver.

Que cuidados tem diariamente?

Para além de descansar muito, que não descanso [risos], tenho que tomar sempre a medicação a horas.

Aos 17 anos, foi viver com o seu pai para Nova Iorque. Estudou Contabilidade, teve vários empregos... O que aprendeu durante esse tempo que hoje o ajude a encarar a vida?

Aprendi muita coisa. Primeiro, tirou de mim qualquer tipo de preconceito em termos de trabalho. Eu fui lavar carros, até já fiz line-up da polícia [Anselmo era um dos atores contratados para integrar a fila de suspeitos de um crime, para que a vítima identificasse o verdadeiro criminoso]! Fiz isso várias vezes até que chegou a um ponto em que a própria esquadra me disse 'Epá, daqui a pouco, de tanto estares aqui, alguém te vai acusar' [risos]. Portanto, já fiz de tudo e mais alguma coisa, não tenho medo do trabalho. E os artistas cada vez mais têm que fazer por si mesmos.

Foi nessa altura que teve a famosa banda de rock latino?

Sim, foi nessa altura [risos]. Sabes que mais, isso foi uma ideia que eu deixei passar. A Mariza até me perguntou 'Mas tu tiveste mesmo uma banda de rock latino?'. E eu disse 'Olha, eu tive uma banda de rock. Latino é porque todos os membros, menos eu, eram latinos'. Um era chileno, outro era mexicano, outro era colombiano e por aí fora. A Mariza ainda diz 'Ah não, mas eu prefiro pensar na banda de rock latino, é mais engraçado' [risos]. E eu disse 'Pronto, então fica assim' [risos].

Já assumiu várias vezes nesta entrevista que tem muita fé em Deus, mas quem é que tem mais fé em si?

Os meus filhos e a minha esposa, sem dúvida.

É difícil alimentar o seu sonho e, por vezes, abdicar do tempo em família?

É cada vez mais difícil. Acho que com a idade, vou valorizando mais a família. A cada dia que fico mais cota, fico mais fã dos meus filhos. Ficar uma semana sem os ver já pesa mesmo. Antigamente, ficava duas ou três semanas, mas hoje em dia já não me atrevo, ou vão ver-me a chorar pelos cantos.

Como é que compensa essa ausência?

Sou um autêntico palhaço com eles, uma criança grande. Tanto que a minha esposa diz sempre que tem três filhos [risos]. Se tiver que gatinhar com eles pela sala fora, sabem que comigo podem contar. Sabem que em mim podem encontrar um pai, mas também um miúdo para brincar. Tento compensar mesmo ao estar bastante presente, ao desligar telefone, desligar tudo e estar mesmo lá.

Já viveu em Angola, Estados Unidos e Portugal. Em qual destes países prefere viver hoje?

Angola. E olha que quando vivia em Nova Iorque pensava em ficar por lá. Mas ao fim de oito anos, quando regressei a Angola e comecei a trabalhar, vi uma mina de ouro. Pensei 'Epá, isto é o único sítio em que compras uma garrafa no supermercado, pões no congelador, vendes na rua e ganhas dinheiro'. E não foi só por causa disso, acho que Angola precisa de nós, jovens, para levarmos o país avante. Angola agora, mais do que nunca, não precisa de petróleo, precisa é dos angolanos.

Entristece-o a situação atual do país, com as revolta contra o Governo, como a de Luaty Beirão?

Essas coisas vão sempre existir. Acho que em Angola precisamos de motivar as pessoas. Existe uma nuvem muito grande de críticas. A minha ajuda para Angola vai ser apadrinhar lares, fazer projetos que possam dar algo a Angola e quando tiver que abrir a minha boca para formar opiniões, vai ser sempre para pacificar, porque já tivemos 30 anos de guerra, não queremos mais. Se provocarmos qualquer tipo de desunião, não vamos conseguir. Porque onde é que não há problemas? Apontem um país onde não haja problemas políticos, financeiros ou de corrupção. Não existe. Nós em Angola já vivemos situações piores, mas éramos felizes, porque havia uma aura positiva. Nós, angolanos, é que temos que criar essa positividade.

Disse no início que o Anselmo Ralph é uma pessoa simples, representativa de quem está lá fora. E quem é que quer ser daqui para a frente?

[Pausa] Eu quero poder ajudar. Um dos meus dons é a filantropia. Quero também poder mostrar aos novos artistas que o sucesso é para dividir com as pessoas que precisam. Aquilo que tu plantas é aquilo que vais colher e eu nestes 10 anos, em que tenho estado numa posição ascendente, tive possibilidades de dar. É isso que eu quero ser. Quero ser um angolano que ajuda Angola e que ajuda os angolanos.

Fotos: Gerardo Santos / Global Imagens

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