Pedro Lima: "Considero-me um ator com alguma competência"
Ivo Geraldes
29.OUT.2015

Regressou recentemente ao cinema com o filme A Uma Hora Incerta mas também pode ser visto na televisão. Pedro Lima, de 44 anos, dedica a maior parte do seu tempo à profissão. No entanto, ainda consegue encontrar espaço para a família e para se dedicar ao seu hobby predilecto: o surf.

Faz parte do elenco do filme A Uma Hora Incerta, que está atualmente nas salas de cinema. A ação da trama decorre na década de 1940, período em que o país vivia a ditadura salazarista. Esta é uma época da história de Portugal que lhe é particularmente interessante?

Sim, até porque ainda é um período muito próximo, não propriamente esta década de 40 mas os anos seguintes em que ainda se manteve esse regime que deixou marcas em muitas pessoas que estão hoje em cargos políticos e dirigem o país. Daqui a 30 ou a 40 anos já será uma geração que nasceu depois do 25 de abril e que não tem tanto essa referência temporal. Eu também já não vivi essa fase, sempre tive a realidade de uma democracia e de liberdade mas tenho o exemplo próximo, por exemplo, dos meus pais.

O facto de ser uma produção de época e de interpretar um agente da PVDE (Polícia de Defesa e Vigilância do Estado) fez com que tivesse uma preparação difícil?

Ser um filme de época não me obrigou a nenhum tipo de preparação especial a não ser ter contacto com algumas imagens daquele tempo e filmes também. Quando li o guião, percebi que havia ali muitos pontos de contactos com o Casablanca: a música, a temática dos refugiados. Este filme tem dois refugiados em Lisboa que são detidos pela PVDE. É muito interessante e uma coincidência feliz este tema dos refugiados ser abordado nesta altura em que todos nós estamos particularmente sensíveis para essa questão. Eu faço o papel do polícia mau que cumpre à regra os princípios do regime.

Mas tentou aconselhar-se junto de familiares que viveram a época?

Aquilo que o meu papel pedia não exigia um profundo conhecimento. A informação já estava toda lá e ninguém melhor que o autor e realizador do filme para ter conhecimento de causa, o Carlos Saboga, que teve que ir para Paris para fugir à ditatura e refugiar-se também.

A maioria dos atores fala do cinema com muito carinho e partilham o sonho de trabalhar nessa área. Porque é que existe esta fantasia nos atores?

No meu caso, acima de tudo, gosto de fazer coisas boas e que influenciem o meu pensamento e o das pessoas. O facto de haver muitos atores a dizerem que têm o sonho de fazer cinema penso que tenha a ver com o imaginário das estrelas de Hollywood e do grande ecrã.

O Pedro tem atualmente projetos em televisão, cinema e também no teatro. É difícil arranjar tempo para estar com a família?

Tenho alguma dificuldade em estar fisicamente parado. Para quem está de fora parece complicado mas, para mim, como já estou habituado a este modo de vida é algo normal.

O que é que pensa do cinema que é feito em Portugal?

Há muitos filmes com os quais não estou em sintonia. Gosto muito de filmes de narrativa, filmes com história que tenham mais ou menos uma estrutura. Em Portugal há muita tendência para fazer filmes de viagens interiores das personagens, com características de autor sobre universos particulares e portanto há muitos filmes em Portugal com os quais não vibro muito. Mas ainda é uma indústria com muito território por explorar.

Tendo em conta que é um ator exclusivo da TVI, o que lhe possibilita ter uma estabilidade económica maior face a outros colegas, sente, ainda assim, necessidade de fazer projetos fora da televisão?

Sim porque a televisão está orientada fundamentalmente para a emoção, não tem grandes preocupações com os conteúdos e com a reflexão. No teatro encontro muitos mais territórios que me obrigam a refletir sobre a vida, sobre os seres humanos e sobre o que andamos aqui a fazer e eu sinto essa necessidade de viver essas experiências. Até porque depois tudo isso tem um impacto muito positivo no meu desempenho na novela.

O Pedro nasceu em Luanda e agora está a integrar um projeto que está intimamente ligado com Angola. Esse fator tem feito com que A Única Mulher esteja a ser especial para si?

Desde sempre que observei com alguma estranheza o facto de não se integrarem atores africanos nas novelas portuguesas, uma vez que existe um grupo muito grande de africanos presentes na nossa sociedade. A TVI teve a coragem de arriscar e foi uma aposta ganha. Neste momento, é a novela preferida dos portugueses. Muitas pessoas que já tiveram uma ligação a Angola e que não têm hipótese de lá ir porque é dispendioso têm aqui uma forma de recuperar histórias e paisagens do país. São pequenos sinais que ajudam a recuperar algumas memórias. Comigo, particularmente, aconteceu isso, fico bastante sensibilizado ao ver aquelas imagens da terra onde nasci.

Alguma vez se arrependeu de ter trocado o desporto de alta competição pela representação?

Não, até porque não foi uma passagem direta. Comecei a ser ator com 26 anos e deixei a natação aos 21 anos, depois de ter ido aos Jogos Olímpicos por duas vezes. Estudava engenharia mecânica e por acidente fui parar ao mundo da moda. Fui sair à noite e alguém me perguntou se queria fazer anúncios. Nunca tinha pensado em ser modelo mas já tinha pensado em ser ator. Ainda andei perdido pela moda durante dois anos e depois é que passei a dedicar-me em exclusivo à profissão de ator.

Acha que tinham apostado em si da mesma forma se não o considerassem um homem bonito?

Embora sempre tenha tido o sonho de ser ator nunca tinha feito nada por isso, nem sequer tinha partilhado com alguém essa minha vontade. Tinha feito algumas economias do meu tempo de atleta de alta competição com o intuito de ir estudar representação para Inglaterra mas no meio desse processo acabei por ser escolhido para fazer uma telenovela. Desde então, fui tendo a felicidade dos convites se irem renovando e de ter trabalhado com alguns dos melhores atores que Portugal teve e tem.

Mas acha que ser uma cara bonita é meio caminho andado para se conseguir trabalhar como ator?

Acho que para entrar é, mas para ficar não. Às tantas até se torna mais difícil. Para se ser chamado, ter uma aparência agradável ajuda mas depois para ficar cá não chega. Quando é só aparência pode-se fazer um projeto ou dois mas depois chega a um ponto em que já não há mais nada para dar à profissão. Sinceramente, sinto que o nível da exigência é maior para quem tem uma melhor aparência.

Já conseguiu afastar a imagem de galã à qual o costumam associar?

Não me considero nenhum galã. Não vivo a pensar nesse aspeto, não acordo todos os dias e vou olhar para o espelho e digo 'ai que bonito que sou'. Quando me dizem isso até fico contente porque é um elogio que me estão a fazer. Se esse preconceito me afastar de outras oportunidades como ator, ficarei um pouco aborrecido mas isso felizmente não tem acontecido.

Como já queria ser ator antes, acha que iria chegar à representação independentemente da passagem pela moda?

Não consigo responder a isso com exatidão. A minha família era altamente conservadora e a moda acabou por ser uma transição. Não sei se algum dia teria tido a coragem de assumir a minha vontade perante a minha família.

Considera-se um bom ator?

Considero-me um ator com alguma competência. Para a idade que tenho, acho que já tenho bastante experiência, tenho respostas para muitos dos problemas que são colocados a um ator. Mas mais importante é que as outras pessoas me considerem um bom ator porque todos nós trabalhamos para os outros, para o público.

Continua a ser um praticante exímio de surf?

Exímio não, mas assíduo sou. Gostaria muito de ser exímio porque ainda me divertiria mais, mas sou muito esforçado.

Este seu hobbie é uma forma de continuar ligado ao seu passado de atleta?

Não, até porque a natação era um grande aborrecimento e o surf é uma grande excitação. É mais que uma atividade, é um modo de vida. Tem sido um elemento que me tem aproximado dos meus melhores amigos e além disso é uma forma de contemplação da natureza.

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