"Quis ser atriz para viver mais coisas do que na minha vida"
Ivo Geraldes
16.DEZ.2015

Joana Metrass tem 27 anos e é a nova atriz portuguesa a fazer sucesso além-fronteiras. Atualmente integra o elenco fixo da série da ABC, Once Upon A Time.

Desde que saiu de Portugal, a Joana tem somado participações em filmes britânicos e americanos e, mais recentemente, entrou para o elenco fixo da série Once Upon A Time. Alguma vez acreditou que fosse possível que isto tudo se concretizasse tão rapidamente?

É verdade, tem acontecido tudo a um ritmo bastante rápido. Quando fui para Londres meti na cabeça que queria estar fora, pelo menos, durante três anos. Decidi não aceitar mais trabalhos cá. Quando lá cheguei arranjei um part-time, imaginando que estaria ali durante algum tempo e ao fim de três semanas em Londres fiquei com o papel no filme do Drácula. Assim que acabei de o filmar, decidi vir a Portugal duas semanas e quando cheguei a minha agente ligou-me a dizer, 'tens que vir para Londres, tens um casting com o Guy Ritchie'. Fiz, fiquei e enquanto estava à espera para começar as filmagens fiz outro para uma longa-metragem independente, em Inglaterra, para protagonista e também fiquei. Tem sido assim (risos).

Mas quando é que decidiu aventurar-se numa carreira internacional?

Todo este ciclo começou há dois anos. Comecei por ir para Londres mas antes de me ir embora tinha concorrido à bolsa de cinema da Gulbenkian que acabei por ganhar. A bolsa era em Los Angeles, decidi ir para lá uns meses estudar e quando cheguei decidi arranjar um manager.

E como é que surgiu a oportunidade de ficar com o papel da rainha Guinevere na série da estação americana ABC, Once Upon A Time?

Foi através de casting. Quando cheguei a LA, tinha um email do meu manager a dizer que tinha um casting para a série. Era para o dia em que estava a viajar para lá mas o voo atrasou-se e não consegui ir. Por sorte também iam fazer casting no dia a seguir.

Já acompanhava a série antes de a integrar?

Ironicamente e por acaso seguia a primeira temporada quando ainda estava em Portugal. Despertou-me logo a atenção pelo lado feminista da série. É a primeira Branca de Neve que tem uma espada e que veio mudar todas as personagens de princesas que conhecemos. Esta série permite mudar a visão que as histórias contam, não são as princesas à espera de se casar e dos seus príncipes, são mulheres fortes, independentes e são elas as líderes dos seus reinos.

Os colegas do elenco fazem-lhe perguntas sobre Portugal?

Sim, perguntam algumas coisas, por exemplo, como é que se dizem algumas palavras. Também falamos imenso de comida. Outra situação engraçada é que como traduzo sempre os meus textos para português, porque dizê-los na nossa língua mãe faz com que sinta as coisas com mais emoção, faço sempre um ensaio da cena em português e os meus colegas ficam a olhar para mim e perguntam-me o que é que acabei de dizer (risos).

Cada episódio é seguido em média por dez milhões de pessoas só nos EUA. Sente o peso da responsabilidade?

Tento não pensar. Lembro-me que estava muito feliz quando soube que fiquei por ter a hipótese de estar num projeto que me permite fazer tantas coisas que gosto. Adoro fazer personagens de época e do mundo da fantasia. Quis ser atriz para viver mais coisas do que as que posso viver na minha vida. O que é que é mais impossível que viver uma personagem de um conto de fadas? Mas sinto constantemente que ainda não me caiu na ficha (risos).

Sendo os mercados americano e britânico competitivos e difíceis de conquistar como se sabe que são, como é que olha para todo o percurso que já conseguiu fazer?

Foi mais rápido do que o comum mas não foi, de todo, um percurso fácil. Houve alturas em que apesar de tudo me pareceu longo, houve ali períodos em que não acontecia nada e que já estava a enlouquecer por não ter trabalho. Mas claro que olhando para o tempo que costuma demorar para a maioria das pessoas, foi rápido e tive muita sorte no meu percurso. Também ajuda ter uma equipa incrível comigo.

Ter um bom manager é o que realmente faz a diferença?

É importante por várias coisas, pelo acesso aos castings e pela relação de confiança que se deve ter. É importante ter um manager que respeite o percurso que queremos fazer e muitos só querem saber do dinheiro. Alguns podiam achar que era maluca da cabeça. Houve oportunidades incríveis que recusei fazer porque eram papéis nos quais não acreditava. Sou super feminista e eram personagens que denegriam imenso a imagem das mulheres e por isso nem quis saber de ir ao casting.

A Joana segue uma linha muito seletiva de atores portugueses que têm conseguido ter sucesso no mercado americano como por exemplo Joaquim de Almeida, Diogo Morgado, Daniela Ruah...Teve oportunidade de pedir algum conselho a eles?

Já estive com o Joaquim de Almeida algumas vezes. Os portugueses em Los Angeles não são muitos e a maioria de nós vive num complexo pequenino criado pelo Charlie Chaplin e fazíamos muitas festas às quais, muitas vezes, o Joaquim ia. Aí cruzámo-nos e falámos.

Passa pela sua cabeça voltar a Portugal?

Passa, não é uma porta fechada para mim. Saí de Portugal, principalmente, porque desde sempre que gosto de sair, por exemplo, quando tinha 16 anos fui fazer um intercâmbio de estudantes no 12º ano para os EUA. Outro motivo é porque queria fazer mais cinema. Se aparecerem projetos, nomeadamente em cinema, que me desafiem não me interessa o sítio onde estou, faço realmente isto por amor. Há muitas pessoas em Portugal com quem gostava de trabalhar e que acho que são muito bons.

Começou a carreira no teatro, passou pelo cinema e quando chegou à televisão fez séries e telefilmes mas nunca fez uma novela. Passa por um objetivo seu fazer um dia um projeto desse tipo?

(Pausa) Não é por onde passa a minha ambição neste momento. O meu formato preferido é cinema e daí ter investido na minha carreira no cinema. Mas principalmente tem a ver com o tempo que se tem para filmar as coisas. Filmei um telefilme quase no mesmo tempo em que filmei um episódio do Once Upon a Time. Mas por outro lado, é um treino e uma escola muito grandes que tive oportunidade de fazer quando participei nos Morangos. Os atores que fazem telenovelas em Portugal têm uma ginástica que muitos atores lá fora não têm.

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