"Santa Bárbara foi feita em tempo recorde"
Gerardo Santos / Global Imagens
Paula Lobo Antunes nasceu em Nova Iorque, cidade onde esteve em novembro passado para assistir aos Emmy Internacionais
Raquel Costa
28.JAN.2016

Paula Lobo Antunes dá vida à falsa médica Luísa Áquila na novela da TVI Santa Bárbara. A atriz, que completou recentemente 40 anos, tece largos elogios a Artur Ribeiro, autor da novela.

Em Santa Bárbara interpreta uma vilã, a médica, Luísa Áquila, que é a antítese do juramento de Hipócrates [Paula Lobo Antunes é licenciada em Biologia Médica e filha do cirurgião João Lobo Antunes].

Ela afinal não é médica! É uma fraude. Por isso é que, agora, vão desvendar-se várias coisas acerca dela. Ela não acabou o curso, Daí ter comportamentos pouco éticos, mas isso também faz parte do caráter dela. Porque ela não tem caráter. Se eu fosse médica, diagnosticava-a como sendo sociopata. Ela não chega a ser bipolar mas tem muitos extremos. É uma pessoa com várias formas de falar com as pessoas e sem escrúpulos. Ela quer é ter dinheiro e, para isso, é capaz de matar, de fazer o que for preciso sem pensar nas consequências. Ela é engraçada e cativante porque não sabemos bem o que está ali por detrás.

Na segunda fase de Santa Bárbara [que deverá começar a ser exibida nas próximas semanas] haverá hipótese de redenção para a Luísa?

Ela vai voltar muito diferente... mas a essência é a mesma. Passam-se seis anos, ela volta com outros objetivos. Os objetivos não são muito definidos. Ela volta muito mais profissional e objetiva naquilo que ela quer. Isso vai depois perceber-se.

Começou por interpretar uma protagonista na sua estreia nas novelas da TVI, em Deixa-me Amar. A maioria dos atores costuma dizer que gosta mais fazer personagens secundárias porque são menos lineares. Concorda?

Depende muito das personagens. Nesta minha personagem, que não tem tanta incidência, se calhar tenho mais tempo de trabalhar as cenas, e de uma forma mais minuciosa. Quando uma pessoa está a gravar todos os dias, cinco dias por semana, fica cansada. Costumo dizer que em cinco cenas, uma fica excelente, três ficam muito boas e o resto é fazer. É uma maratona. E faz-se. Nesta novela, também temos duas protagonistas, a São José [Correia] e a Benedita [Pereira], que têm estado a fazer um excelente trabalho. Mas é muito cansativo.

Ainda para mais com duas fases!

Duas fases mas em metade do tempo para as fazer! Vamos acabar as gravações já na próxima semana (três de fevereiro). Esta novela foi feita em tempo recorde, em contra-relógio mesmo.

Isso implica que toda a gente esteja em piloto automático, quase.

Ninguém pode ficar doente, toda a gente tem de estar mesmo em cima!

"É bom estar a fazer novela com um texto que tem uma boa substância"

A novela Mulheres, da autoria de Eduarda Laia e nomeada para um Emmy Internacional, foi exibida em diferentes horários na antena da TVI. Considera que há um paradoxo?

Uma coisa não invalida a qualidade da novela. Sempre foi reconhecida, pelo menos internamente e também pelos telespectadores, atores e pela equipa. Tanto que é a TVI que faz a proposta para as nomeações. Se calhar, em termos de grelha, não souberam gerir da melhor maneira e optaram por "brincar" um bocadinho com os horários e usar outros programas. Ainda hoje fazem isso com Santa Bárbara. Obviamente, choveram críticas do público na altura da nomeação. A TVI sabia o produto que tinha, senão não propunha a novela. As grelhas são um puzzle muito complexo, pelo qual já tive mais interesse. Mas, hoje em dia, confesso que prefiro só estudar o meu papel senão vou ficar chateada e triste. Mas também sei que as pessoas que gostam e querem ver, seguem. Ora gravam, ora veem na internet.

Acha que o espectador-tipo de novelas reage de forma receosa a um produto como Mulheres ou também é papel dos canais ir introduzindo esse tipo de formatos para criar uma habituação?

Acho que sim. Obviamente que as pessoas gostam daquilo que lhes é dado. E, no início, ficam um bocado a estranhar. Ali, não havia pessoas nem muito boas nem muito más. Eram só histórias verdadeiras e isso, obviamente, é um bocadinho diferente daquilo que as pessoas estão habituadas. Mas sim, é uma questão de introduzir histórias diferentes e maneiras diferentes de fazer. Mulheres era uma novela muito simples, no sentido das situações serem muito quotidianas. Por um lado, as pessoas estranham, porque é um formato diferente. Mas, quanto mais nós introduzirmos esse tipo de ficção as pessoas vão ficar mais habituadas. Tal como acontece na RTP com Terapia. É uma série diferente, a que as pessoas não estão bem habituadas e demora um bocadinho para cativar.

Costuma ver?

Vejo! Vejo tudo. Faz parte do meu trabalho, para pesquisar, para saber o que está a ser feito. Tem coisas de muita qualidade. Se dermos isso ao público, as pessoas vão ficar mais habituadas. Vão reconhecer esse tipo de linguagem e conseguir apreciar.

Teve um significado especial para si estar na cidade onde nasceu a assistir aos Emmy Internacionais?

(risos) Foi uma cerimónia muito bonita e, durante a novela, toda a gente se deu muito bem. Tornámo-nos um grupo muito unido, apesar de haver aquela coisa que dizem que as mulheres não se dão bem e que estão sempre todas umas contra as outras... mas não é verdade. Foi mesmo muito harmonioso. Isso, lá está, reflete-se na qualidade e, depois, na nomeação. Foi bom estar lá, poder partilhar com as minhas amigas sítios onde eu costumava ir, passear... Foi comovente.

O que é significa para uma profissional da televisão estar nos Emmy Internacionais?

Temos de sentir que estamos lá por nosso mérito. Somos todos atores, embora de países diferentes, e o nosso objetivo é fazer sentir. Todos sabemos o que passamos, o que sofremos, o que é preciso para conseguir aquele produto. Os atores são uma classe muito unida, mesmo a nível internacional. Há ali uma ligação invisível, que dá um suporte e reconhecimento que são muito bons. Quando passou o nosso trailer ficámos muito orgulhosas e felizes... Por acaso, o nosso era o melhor! Não ganhámos, não sei porquê (risos)!

Qual tem sido, ao longo da sua carreira, o critério de escolha das suas personagens? Já recusou papéis?

Já recusei alguns, por várias razões. Ora por achar que a personagem não iria acrescentar alguma coisa, ora por uma questão de tempo. Os fatores que pesam mais são: a personagem, com quem é que estou a fazer, em termos de realização, e os atores com quem vou contracenar. Isso é muito importante. Nesta novela, ainda estive na dúvida se iria ou não aceitar...

Porquê?

Porque estava numa fase de transição. Deixei de ter contrato com a TVI e estava um bocado na dúvida sobre o que é que iria fazer. Ia estar a trabalhar muito próxima da Luísa Cruz, que não conhecia e admiro imenso e com o António Capelo, o Marco d'Almeida, o Romeu Costa. Esse foi um fator que pesou na decisão da escolha desta personagem. Apesar de ser uma adaptação, esta novela é escrita pelo Artur Ribeiro, com quem já trabalhei no Equador e na série O Dom. Admiro muito o trabalho dele, ele tem uma forma muito intelectual de escrever. É muito complexa, difícil de decorar. E eu sou daquelas pessoas que decora exatamente o que está no guião, porque acho que é assim que deve ser.

É um desafio para um ator que faz novelas há muito tempo e está habituado a um determinado padrão?

É, porque mesmo uma cena que pode ser muito banal é muito rica em termos de escrita. E isso é aliciante. É bom estar a fazer novela com um texto que tem uma boa substância.

O seu contrato de exclusividade com a TVI terminou. Como foi essa decisão?

Foi mútua, muito tranquila e pacífica. Obviamente tenho um enorme carinho, a TVI sempre foi a minha casa. Acho que aconteceu na altura certa, tanto que ainda estou na TVI (risos)!

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