A rua onde uma geração aprendeu a ler faz 25 anos
Ana Filipe Silveira e Márcia Gurgel
31.OUT.2014

Deixou de ser exibida em 1992, mas ainda hoje é recordada. Atores que participaram recordam com saudade os tempos da Rua Sésamo e garantem que na televisão de hoje havia espaço para este formato

As suas histórias e personagens andavam há já algum tempo na boca dos portugueses, criando uma invulgar expectativa em seu redor. Não era para menos. Nesse ano, o de 1989, o Becas e o Egas, o Monstro das Bolachas e o Monstro das Duas Cabeças, o André, a Avó Chica e a Clementina, o Sr. Almiro e ainda a Guiomar eram, fazia duas décadas, um verdadeiro sucesso na terra dos sonhos. Agora iam, pela primeira vez, falar na língua de Camões. Era segunda-feira, 6 de novembro. A estreia estava agendada para esse dia. O relógio batia as 18.20 quando a RTP1 ecoou "O Sol nasceu,/ como está lindo o céu/ Cá vou eu, vem tu daí também/ Aprender como se vai até à Rua Sésamo"... Estava dado o pontapé de saída para aquela que é considerada a série infantil mais educativa de sempre.

A rua do título situava-se num cenário construído pelo cenógrafo Moniz Ribeiro nos estúdios da Tobis, alugado pela estação pública. Era uma rua parecida com muitas outras, ladeada de prédios e pisada por gente comum, que se servia na frutaria do Sr. Almiro e conversava na papelaria da Carolina e onde uma cabina telefónica e um marco de correio tinham lugar privilegiado. No entanto, essa a que se chamava de Sésamo, era também uma rua diferente, porque nela viviam o Poupas, um grande pássaro de cor amarela, ingénuo e sempre com uma pergunta na ponta da língua, e o Ferrão, um animal rezingão, com frequentes crises de humor, que gostava de se resguardar num caixote de madeira.

Sempre ao lado do Poupas e do Ferrão estava a jovem Guiomar, a rapariga mais bonita da Rua Sésamo. Era Alexandra Lencastre quem lhe dava vida. "Foi uma fase muito feliz da minha vida. Recordo com ternura o Poupas porque a minha personagem era uma estudante de Arquitetura, era cúmplice do Poupas e acabava por ser mediadora entre este e o Ferrão", recorda a atriz à Notícias TV, lembrando ainda que foi parar a esta rua quase por acaso. "A minha experiência era mínima e fui ao casting porque tinha muita vontade de trabalhar num programa para crianças. Acabou por ser uma rampa de lançamento para a minha carreira. Quando andava no Conservatório era um pouco preconceituosa em relação a trabalhar em televisão e com a Rua Sésamo percebi que era maravilhoso e até mágico, além de ser muito formativo."

A formação dos mais jovens foi sempre um dos objetivos deste formato norte-americano orientado para crianças dos três aos seis anos. Aliás, ensinar brincando, podia ser - e era - um dos lemas de Rua Sésamo, por isso a sua adaptação à realidade portuguesa foi feita por uma equipa coordenada por Clara Alvarez, com assessoria pedagógica de Maria Emília Brederode dos Santos. Ao seu lado existia um grupo de guionistas sob a responsabilidade de António Torrado e a produção estava a cargo da CTW - Children"s Television Worshop, uma cadeia vocacionada para a educação.

E é precisamente o lado educativo do programa que Teresa Paixão, há mais de 20 anos responsável pela programação infantil da RTP, encontra como uma das razões do seu sucesso. "Foi a primeira vez que houve um programa com objetivos educativos e até escolares muito diretos. Os outros programas anteriores à Rua Sésamo também ensinavam coisas às crianças, mas não de forma direta. Esse ensino permitiu que os pais percebessem o que é que os meninos aprendem", começa por explicar a responsável, recordando que "o formato tinha 53 objetivos educativos diferentes e outros que ninguém daria por eles". "Por exemplo, aprender a esperar numa fila, aprender a contar, a dizer o alfabeto, a reconhecer algumas palavras", exemplifica.

Quem também percorria a calçada da Rua Sésamo era Vítor Norte na pele de André, o carpinteiro, pintor e mecânico do bairro. "Era um trabalho de uma grande equipa e havia um grande cuidado em tudo, o que é raro encontrar-se hoje em dia, porque nessa altura havia tempo e dinheiro", sublinha o ator, frisando ainda a importância "dos textos, que eram escritos por escritores" e de "na Rua Sésamo existir também um grande cuidado em não exibir conteúdos violentos, algo muito comum nos programas infantis da atualidade". "As pessoas aprendiam e divertiam-se ao mesmo tempo", acrescenta.

Duas das personagens mais queridas desta produção são os famosos Becas (Rui Paulo) e Egas (Rui de Sá). "Acredito que o êxito do programa teve muito que ver com os bonecos em si. Eram muito apelativos. Além disso, o guião era muito cuidado e, um dado muito importante para o desempenho dos atores, foi a direção de António Feio", aponta Rui de Sá, que teve a sua estreia nas dobragens com o Egas. "Surgiu através de um casting. Eu ia participar num programa do Luís Pereira de Sousa, o Estúdio 4, e disseram-me para ir à audição, conta.

Também José Pedro Gomes, ou o Monstro das Duas Cabeças desta famosa rua, recorda este tempo com saudade. "Comecei a trabalhar com o António Feio nessa altura. Era ele quem dirigia as dobragens e o programa era feito com muito cuidado. Para além de o original ser muito bom, a tradução foi feita com muito rigor. Nunca mais se fez nada assim. Didaticamente era fantástica", enaltece.

A filha de Manuel Cavaco tinha acabado de entrar na escola quando o pai deu voz ao Monstro das Bolachas e ao Telmo. "Sentia o feedback das crianças principalmente quando a levava à escola. Ela tornou-se uma heroína porque era filha do Monstro das Bolachas", ri-se Manuel Cavaco, que ainda não se esqueceu das horas de trabalho para fazer as suas falas. "Trabalhávamos à segunda-feira, durante todo o dia, porque era quando tínhamos folga do teatro. E depois ainda acrescentávamos umas boas horas noutro dia. Demorávamos uns dois dias a gravar um episódio. Naquela altura, todos os atores tinham de estar em estúdio porque os diálogos também se faziam ao vivo. Hoje isso já não é preciso, porque cada um faz a sua parte e depois mistura-se", argumenta o ator.

"fazer a rua sésamo

é muito caro"

A Rua Sésamo tinha - e ainda tem nos EUA, onde é exibida há 45 anos, tornando-se o programa infantil de televisão com maior duração na história - o condão de suscitar o interesse dos mais novos, mas também de cativar os mais velhos. "Na sua origem, foi construída para juntar os adultos com as crianças em frente ao ecrã. E isso permite uma absorção da aprendizagem maior porque as crianças vão falando com a família e podem ir tirando dúvidas. Dava piscadelas de olhos aos adultos com o humor de bonecos como o Egas e o Becas", justifica Teresa Paixão. Já Egas, ou Rui de Sá, acredita que os adultos eram seduzidos por ele e pelos seus companheiros porque "todos têm o seu universo infantil". E ele próprio, ainda hoje, gosta de "espreitar os bonecos que, agora, andam também pelas redes sociais. "Eles não estão datados, podem ver-se em qualquer altura."

Será que Rui de Sá tem razão? Será que ainda há espaço para esta rua no bairro chamado televisão? Quem esteve nas quatro temporadas, com um total de 220 episódios, responde que sim. "Não tenho dúvida nenhuma de que seria um êxito ainda hoje. É um êxito nos EUA, portanto... Posso dizer que fui a Nova Iorque no verão e trouxe uma T-shirt maravilhosa com os bonecos. Estavam a ser vendidas às pazadas", brinca Manuel Cavaco. Já para o colega Vítor Norte, "as coisas de qualidade terão sempre espaço na televisão". José Pedro Gomes também não tem reservas quanto ao êxito de um eventual regresso, mas duvida que houvesse interesse da parte dos canais: "Não sei se os programadores estariam interessados porque era um programa didático sem violência." E Alexandra Lencastre até deixa a janela aberta: "Às vezes sou abordada por pessoas, que não seguem a minha carreira, quer na TV, no teatro ou no cinema, mas que ainda se lembra de mim da Rua Sésamo. Se houvesse uma nova edição, adorava participar."

A responsável pela programação infantil da RTP admite que já recebeu vários pedidos para o regresso do programa criado por Joan Ganz Cooney e Lloyd Morrisett e com bonecos criados por Jim Henson, o mesmo de Os Marretas. "Fazer a Rua Sésamo é muito caro, é mesmo preciso dinheiro. As pessoas convencem-se de que podem fazer bons projetos por nada, mas não é possível", admite Teresa Paixão.

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