Colapso da banca também chega à ficção
Carla Bernardino
20.MAR.2015

É à boleia da falência de um banco português que os laços entre Lisboa e Luanda ficam mais tremidos na nova história da TVI, A Única Mulher. Autora nega semelhança com o caso BES, mas defende que a realidade deve estar nas novelas

Jorge Sacramento (José Wallenstein) é dono de uma construtora civil portuguesa à beira do colapso financeiro. Resta-lhe as empreitadas em Angola, com o apoio de Norberto (Ângelo Torres), para que a empresa garanta a sobrevivência. Este é um dos grandes primeiros "ganchos" da nova novela da TVI, A Única Mulher. Porém, a falência do banco português BCL - no qual o angolano tinha investido cerca de 200 milhões de euros - vai fazer parar todas as obras em curso, provocando repercussões gigantescas na empresa portuguesa e, consequentemente, na família Sacramento.

Este é um dos enredos que servem de fio condutor entre as duas capitais Lisboa e Luanda e entre múltiplos laços e histórias de amor. Mas será o BCL da ficção - o Banco Comercial Lusitano - o retrato do colapso do Banco Espírito Santo (BES)? Maria João Mira, autora deste projeto, a par de André Ramalho, nega que esteja a reproduzir na novela uma realidade que há quase um ano está nas páginas dos jornais, no dia-a-dia dos portugueses, na cabeça de investidores e particulares e que está a ser alvo de uma comissão de inquérito na Assembleia da República.

"O BCL é uma história ficcionada, é efetivamente sobre o colapso de um banco e é um mote para a história andar e vai prosseguir na novela relacionando vários núcleos de personagens", defende a argumentista, garantindo, e repetindo, que "não há qualquer colagem ao caso dos BES".

"Não andei a ver esse caso e sei tanto sobre ele como o resto das pessoas", vinca ainda Maria João Mira, que recusa semelhanças mesmo quando se fala das páginas de jornais que foram mostradas no primeiro episódio da nova história da noite da TVI. "Neste caso, há efetivamente o colapso do banco depois de aparecerem títulos nos jornais de que era uma instituição "not to big to fail" (ou seja, não era grande de mais para falir, em tradução literal)". Recorde-se que esta tem sido uma expressão usada para definir instituições financeiras demasiado grandes e cuja falência podia arrastar consigo um país, levando os governos a ponderar ou mesmo intervir e impedir o colapso.

BES E BCL são "coincidência"

A autora lembra que "esta história não é sobre o colapso de um banco específico" e muito menos pretende ser um "registo documental" do que aconteceu em julho e agosto do ano passado. Maria João Mira não nega, porém, que esta trama, protagonizada por Ana Sofia Martins e Lourenço Ortigão, seja alicerçada na realidade nacional, até por uma questão de contexto e de identificação dos espectadores com a história que está a ser exibida. "As pessoas não vivem em bolhas, as histórias de cada um estão enraizadas naquilo que se passa na realidade. As histórias têm sempre um contexto onde decorrem, não são abstratas", afirma, acrescentando que "a novela deve também proporcionar um fenómeno de identificação entre o que é contado e o espectador".

Para Maria João Mira trata-se de "uma coincidência", já que "Portugal teve o caso BPN e BES", mas reitera: "Não há colagem." Mesmo quando confrontada com o facto de as iniciais BCL conterem as letras que há anos o BES perdeu - quando era BESCL (Banco Espírito Santo e Comercial de Lisboa) -, a autora contrapõe com o argumento da pura coincidência. "Esta história não retrata o universo do banco, é uma falência de uma instituição que vai ser um mote por forma a que a história possa prosseguir."

O governo português não salvou o banco. Esta é uma frase dita pelo investidor angolano, na personagem Norberto, quando confrontado com o colapso da instituição e a perda de 200 milhões de euros, e repetida pelo mesmo ator quando comunica que vai parar a obra da construtora portuguesa. Maria João Mira recorda que esta é a "frase que todos os investidores, em posição semelhante, normalmente dizem quando perdem os investimentos", afirma, não adiantando, porém , se vão ou não existir outros olhares sobre o fim pensado para este ficcionado BCL."Não vou fazer desta questão uma polémica na novela e se o assunto da história fosse o colapso do banco tinha dado outras perspetivas", sublinha a argumentista, vincando "não" estar a "tomar posição".

"É o ponto de vista daquela personagem, que não diria outra coisa que não aquela, que não teria outro ponto de vista que não aquele perante aquela realidade", salvaguarda a autora da TVI, que viu a estreia da nova novela, no domingo passado, liderar no horário, com uma média de mais de um 1,7 milhões pessoas. Um êxito que a autora não comenta por não falar de audiências.

"Contexto gera proximidade"

Deve ou não uma história refletir a realidade onde se insere? Numa altura em que o crime financeiro e o colapso da banca parecem multiplicar-se nos produtos televisivos norte-americanos - com a recriação da história de Bernard Madoff, que foi o autor da maior fraude financeira do mundo e condenado a 150 anos da prisão - por cá, as vicissitudes e escândalos da banca não têm tido expressão nas centenas de horas de ficção que anualmente se produzem. Mas está nas intenções do colega de guiões que também trabalha para a TVI, Artur Ribeiro. Este autor da novela Belmonte, uma adaptação da história Hijos del Monte, afirmava à Notícias TV, há cerca de duas semanas, que até já tinha imaginado o ator Luís Lucas na pele de Ricardo Salgado, ex-presidente do BES, dadas as semelhanças físicas. O argumentista salvaguardava, porém, a necessidade de "esperar pelo desfecho da história" para poder escrever uma série sobre o escândalo.

Quanto a Maria João Mira, que reitera apenas as coincidências, os limites estão na inspiração. "Uma novela não deixa de ser uma história. Não tenho pretensão de fazer nenhuma análise política ou económica até porque a ficção é um produto lúdico que fala de emoções e conflitos", afirma. Narrativas que, diz a autora, beneficiam se forem "ancoradas na realidade". Apesar das tentativas, não foi possível obter uma resposta por parte do diretor de Programas da estação de Queluz de Baixo, Bruno Santos.

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