Como a televisão trata a religião
Ana Filipe Silveira e Márcia Gurgel
18.SET.2014

Especialistas e líderes religiosos gostavam que os assuntos da fé "tivessem mais espaço em antena", através de debates, entrevistas e reportagens, e lamentam que por vezes a informação religiosa não tenha o tratamento devido.

Ao longo da história, muitas têm sido as discussões em torno da religião. Houve quem a tivesse descrito como "o ópio do povo" (Karl Marx) ou quem considerasse que "uma sociedade sem religião é como um navio sem bússola" (Napoleão Bonaparte). É um tema que deixa poucos indiferentes e que invariavelmente termina em discussões acaloradas, quer por aqueles que defendem que a sua confissão religiosa é que está certa quer pelos que contestam qualquer religião. Mas será que a televisão tem dado a devida importância aos assuntos da fé?

As opiniões dividem-se. Moisés Espírito Santo, sociólogo e especialista em religiões, não tem dúvidas de que "a religião já teve mais peso na televisão", não existindo atualmente "um grande interesse" relativamente a esta questão". "Existe um certo desprezo da televisão que orienta-se muito para o divertimento e as religiões não incitam ao divertimento", considera.

Fernando Soares Loja, Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, salienta aquilo que tem visto na televisão leva-o a pensar "que o tema da religião, em geral, não colhe o tratamento devido" e acrescenta que por norma "não é tratado por quem conheça o assunto e a matéria". "Muitas vezes quem trata os temas não tem conhecimento e acaba por transmitir para o público ideias que não são rigorosas. Isso é negativo porque passam-se para o público informações que são pouco rigorosas e há um desvirtuamento do fenómeno religioso."

O jornalista e padre Manuel Vilas Boas aponta a falta de conhecimento para o facto de o fenómeno religioso ser maltratado pela televisão portuguesa. "O problema não está nos canais em si mesmos, mas em quem os dirige. Não tem gente que entenda o fenómeno religioso como tal, mas antes um desconhecimento e, por isso, não se lhe dá o devido valor ou é tratado de uma maneira incipiente, quase sempre pelos seus aspetos folclóricos."

Para o cofundador do programa da RTP2 70x7, a religião é um fenómeno "tão importante como muitos outros" e, por isso mesmo, deveria ser mais vezes debatido no ecrã, o que não acontece "precisamente por haver falta de quem seja capaz de realizar esses debates com elegância, seriedade e competência". "O que muitas vezes se vê é uma aproximação ao fenómeno e pelos lados menos sérios que a religião tem", frisa.

Opinião partilhada por D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, que aponta o facto de a televisão "não trata a temática religiosa como devia". Também Ester Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, lamenta que a religião esteja " muito ausente da televisão a não ser nos casos do fundamentalismo islâmico ou do antissemitismo".

O facto de as televisões, RTP e TVI, transmitirem a eucaristia dominical não é sinónimo, ao contrário do que se possa pensar, de que "os assuntos religiosos fiquem devidamente abordados", alerta a jornalista Aura Miguel, da rádio Renascença. Portugal é dos poucos países "onde há dois canais a emitir uma missa de três horas todas as semanas", o que "não significa que o fenómeno religioso esteja a ser tratado da forma devida", destaca Joaquim Franco, jornalista da SIC.

Manuel Vilas Boas também aponta o dedo às transmissões da eucaristia dominical, principalmente na estação de serviço público. "Na TVI, é realmente um fenómeno de audiências. Já na RTP1, a transmissão da missa é feita com menos dinamismo. Nem sempre é uma transmissão cuidada. Aliás, os próprios sacerdotes deveriam ser preparados para conseguirem lidar com o meio televisivo. Isto favoreceria tanto o canal como a celebração", acredita.

Tanto a Eucaristia como o programa Oitavo Dia (ambos exibidos na TVI) costumam marcar presença na tabela dos 15 programas mais vistos de domingo. Questionado sobre as boas audiências de ambos os formatos, o Padre António Rego justifica: "Acho que o religioso quando é bem comunicado cria uma sintonia com muitos elementos da pessoa humana, gera um espaço de serenidade. Se tratado com arte, junta a fé e o belo numa harmonia e comunhão com Deus. E há muita gente mesmo não cristã ou crente que se sente bem neste fio de ligação com o transcende."

Aquele que foi primeiro diretor de Informação da TVI, que no seu início mantinha uma ligação à Igreja Católica, destaca ainda que "os média estão muito condicionados ao mercado da notícia". "Na generalidade o religioso não é mal tratado e cada vez mais tem encontrado profissionais que o sabem dizer e colocar no lugar certo da vida comunitária. Existe uma agência católica que ajuda bastante a fazer da Igreja notícia. E a Igreja sabe dizer-se cada vez melhor. Julgo que se evoluiu na compreensão que estamos num país laico mas não o povo que mantém matriz e expressa isso de muitas formas, nem sempre perfeitas", argumenta.

Para Fátima Campos Ferreira, a televisão não trata a religião de forma diferente comparativamente com outras temáticas. "A religião em televisão é vista e tratada como todos os outros assuntos. Ou seja, aborda, mas não entra em profundidade em nenhum deles", diz. A jornalista, que regressa na segunda-feira com o programa Prós e Contras, na RTP1, justifica que é este "o potencial do meio televisivo. "Não é um meio que dê para aprofundar qualquer questão", sublinha.

O que é que pode ser feito para tornar a religião mais presente?

Debates, entrevistas, reportagens, uma linguagem mais simplificada e adaptada à televisão e até cursos para jornalistas são alguns dos caminhos sugeridos. "A religião também é cultura", adverte Ester Mucznik. "As religiões são fatores de coesão, solidariedade social e por isso não deve haver medo de as religiões perturbarem a ordem social do País", sublinha, por seu turno, Moisés Espírito Santo.

Nesse sentido, é importante que a comunicação social passe a dar mais voz às diferentes confissões religiosas. Manuel Vilas Boas alerta que, "o grande problema, no que diz respeito aos media e à Igreja Católica, é o facto de esta "não ser capaz de passar a sua mensagem por não dominar a linguagem televisiva", que é completamente diferente da litúrgica. "Ao longo dos últimos 30 anos, a Igreja foi fazendo algumas aproximações, algumas até com qualidade. Eu próprio estive metido no meio dessa aproximação quando realizei o 70x7, porque na altura percebi que a linguagem a usar deveria ser mais parecida com as dos media do que com a religiosa. Esta teria de se transformar para poder passar pela televisão", acrescenta. Uma aproximação que ficou aquém do que seria desejável. "Atualmente, a maioria das homilias são trechos sem grande qualidade e competência", atira.

No tratamento religioso televisivo, o jornalista da SIC Joaquim Franco admite que o que acha "fascinante" é o que é "invisível". "Os lados mais visíveis da religião, ou seja, os institucionais, são também os mais fáceis de se fazer e é comum verem-se. Mas há o outro lado, que é a religião enquanto fenómeno misterioso e não é visível. Falo do que está no coração e na pessoa e que é apenas visível na sua experiência comportamental", refere.

Porém, para que essa "experiência comportamental" passe para os espectadores, é necessário uma maior sintonia entre a linguagem televisiva e a religiosa. "A narrativa religiosa parte de um contexto absoluto e sofre um impacto quando entra numa lógica de discurso relativista. Isto cria uma certa tensão. Digamos que a tradição está a ceder à inovação e a disciplina ao improviso. Ou seja, há dimensões do domínio das verdades absolutas, do rigor e da disciplina religiosa, que entram em confronto com um novo dinamismo mediático", constata o repórter". "Não se diz um fenómeno religioso com a pressa com que se relata um jogo de futebol e, muitas vezes, a dinâmica televisiva está refém do encurtamento do tempo", acrescenta. Já a vaticanista Aura Miguel alerta para a dificuldade em abordar temáticas religiosas e "fugir ao nível beato, teológico". "A tendência ao falar em religião é extremar para o que é beato, e isso é insuportável, ou para o puramente teológico", lembra.

Ester Mucznik admite que pode ser difícil para a televisão tratar este tema, e destaca que "faltam documentários sobre a realidade das diferentes religiões, sobre a sua história e o seu presente". A vice-presidente da Comunidade Israelita em Lisboa lamenta que os espaços informativos não deem qualquer destaque a datas festivas importantes no judaísmo como o Rosh Hashana (Ano Novo judaico que este ano se comemora a partir de dia 25) e o Yom Kippur (Dia do Perdão que se assinala a 4 de outubro).

O presidente da Comissão da Liberdade Religiosa não tem dúvidas de que deveriam existir mais debates sobre religião para promover o esclarecimento da opinião pública e recorda uma iniciativa que teve lugar há cerca de quatro anos. "A diocese de Lisboa realizou uma formação, um pequeno curso de duas manhãs, para um grupo de cerca de 20 jornalistas e penso que isso é bom quer para as entidades religiosas quer para os jornalistas. Eventualmente no próprio curso do jornalismo deveria haver algo relacionado com o fenómeno religioso, já que se trata de uma matéria algo complexa."

Fátima Campos Ferreira, por seu turno, não vê necessidade de existirem mais debates sobre religião no pequeno ecrã. "Acho que existem os que têm de existir e que são feitos quando os assuntos se colocam. Não vejo aí qualquer problema."

"As pessoas estão muito mal informadas sobre o Islão"

Nos últimos dias, a comunicação social tem dado especial enfoque às notícias sobre o banho de sangue que tem sido derramado pelo movimento extremista Estado Islâmico.

Moisés Espírito Santo e Fernando Soares Loja não hesitam: "As pessoas estão muito mal informadas sobre o islão." A falta de informação, considera o Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, "leva à formação de estereótipos que depois se refletem na forma como nós nos tratamos uns aos outros". E prossegue: "Há de facto escolas de pensamento islâmico que são perigosas, em países como o Líbia, na qual os muçulmanos acabaram com a comunidade judaica. No Iraque e na Síria estão a acabar com as comunidades cristãs. E se puderem acabam também com as comunidades curdas. Era necessário que as pessoas fossem esclarecidas porque dentro do islão também existem escolas de pensamento que são vítimas de perseguição por parte de outros", frisa.

Na opinião de Moisés Espírito Santo, deveria existir "informação e debates sobre a questão do fundamentalismo islâmico e não apenas notícias avulsas sobre atrocidades". "O islão pode levar a esse exagero se for assumido individualmente sem controle de um líder ou de uma instituição. O grande perigo do islão é esse. Por isso é que devia haver informação objetiva sobre o islão."

Neste seguimento, frisa Ester Mucznik, estamos perante "um problema relativamente ao facto de se confundir uma minoria extremamente perigosa e ativa com a totalidade" o que faz que haja um acréscimo do anti-islamismo.

O mesmo aplica-se as notícias relativas ao conflito israelo-palestiniano, que abrandou com o cessar fogo permanente acordado entre ambas as partes a 26 de agosto. "No caso do judaísmo o problema é outro. É o facto de se achar que os judeus têm de pagar por uma política da qual a maioria dos judeus não interfere. As pessoas não percebem bem por ignorância histórica o laço que une os judeus do mundo inteiro a Israel. É um laço identitário", ressalva a vice-presidente da Comunidade Israelita em Lisboa, lamentando que as pessoas apenas "olhem para o número de vítimas" quando assistem às notícias, em vez "de se questionarem sobre as causas e as origens".

Televisão potencia ou dissemina a liberdade religiosa?

Se não há dúvidas de que em muitas outras áreas a televisão é grande meio massificador, no que diz respeito à religião existem algumas dúvidas. Começando na falta de diversidade das diferentes confissões religiosas e terminado nas notícias que são veiculadas sobre religião que por vezes apenas espelham o lado negativo.

O sociólogo Moisés Espírito Santo diz que a televisão "não tem prejudicado a liberdade religiosa", mas reconhece que "é um pouco parcial no sentido em que só informa o que é conhecido".

A TV tem contribuído para a liberdade religiosa, considera Fernando Soares Loja, "mas poderia ajudar mais". "A TV poderia participar mais na formação dos cidadãos", adverte.

O facto de a televisão ser um grande meio massificador é questionável, na opinião do padre António Rego. "Está espalhado por imensos canais temáticos minoritários, as comunicações pelas redes sociais estão a avançar terreno na divulgação de informações, mobilização para causas, intercâmbio incomensurável de conhecimentos e afetos", explica.

Ainda assim, o antigo diretor de Informação da estação de Queluz de Baixo admite: "É indiscutível que a televisão congrega milhões e tem grande influência social na configuração de padrões, apresentação de modelos e proposta de valores. Aqui aparece algo de bizarro: a cumplicidade entre a televisão e as pessoas. A televisão exibe os que as pessoas querem. As pessoas decidem o que a televisão deve exibir. A audiência, o mercado, o poder político - ainda que subterrâneo - como que fazem um só com a grande multidão anónima de espectadores."

O bispo emérito de Setúbal evidencia que "a televisão não tem contribuído muito para a liberdade religiosa porque não varia os assuntos e não fala muito sobre as práticas religiosas dos portugueses". Ainda assim, D. Manuel Martins faz questão de dizer que "também não tem feito o contrário". "Tem sido neutra. É como se a vida religiosa passasse ao lado dos programas informativos."

A Notícias TV tentou entrar em contacto com a Aliança Evangélica e com o imã da Mesquita de Lisboa, Sheik Munir, mas tal não foi possível até ao fecho da edição.

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