O fenómeno 'made in' argentina que apaixonou o mundo
Raquel Costa
30.DEZ.2014

53 países. Cinco continentes. Milhões de fãs. Violetta nasceu na Argentina e tomou de assalto o mundo inteiro. A série infantojuvenil protagonizada por Martina Stoessel é um caso ímpar de sucesso e Portugal não escapa à febre.

Madrid é, já amanhã, a primeira das 38 cidades, entre Europa e América Latina, a receber a loucura. As portas do Palacio de Deportes abrem para a segunda digressão de Violetta, a série que o Disney Channel lançou em 2012, em parceria com a produtora argentina Pol-ka, e que se tornou um dos mais sérios casos de sucesso do gigante de entretenimento infantojuvenil.

Lisboa não escapa à febre violeta e, entre 23 e 25 de janeiro, terá seis concertos. Violetta e os seus dois pretendentes, León e Diego, estarão em palco no espetáculo que, à data de fecho desta edição, contava com 66 mil bilhetes vendidos, o correspondente a 90% da lotação. O número de datas na capital portuguesa só é superado por Paris e Roma, com cinco e três, respetivamente. "Eu acho um fenómeno juntar 300 pessoas à mesma hora, ao mesmo sítio, a pagarem bilhete. Isto é um superfenómeno", garante Álvaro Covões, diretor executivo da Everything Is New, promotora que traz a digressão a Portugal.

Violetta, cuja segunda temporada estreou em setembro no Disney Channel Portugal, é atualmente emitida em 53 países nos cinco continentes, das ilhas Faroé à Austrália, da Guatemala à Grécia (e também no mundo árabe). Só os EUA (país natal da Disney e onde a comunidade hispânica representa 16,7% da população) escapa, para já, ao fenómeno. "Eles estão atentos e, inclusive, estão a ser pensadas iniciativas para este ano nas quais haverá a possibilidade de envolver, de alguma forma, a Violetta", garante Patrícia Reis, diretora de marketing da Disney Portugal.

Álvaro Covões tem outra explicação para o facto de Violetta não ser transmitida em terras do Tio Sam. "Preconceito e, talvez, chauvinismo. Não por parte da Disney. É uma questão cultural. É um produto que, para eles, vem do terceiro mundo. Estou a imaginar os americanos, sentados naquelas salas de reuniões gigantescas, a discutir teorias de programação e, de repente, alguém dizer "está aqui um produto que vem da Argentina". E estou a imaginar o diretor a perguntar se é alguma piada", ironiza Álvaro Covões.

Violetta tem estrutura narrativa e duração semelhantes a uma telenovela. Um produto que, a priori, resultaria bem nos países da América Latina, poderia estar condenado ao fracasso fora do universo hispânico. Mais ainda porque, à exceção de alguns países, os diálogos são dobrados mas as músicas são mantidas em espanhol. O que significa que crianças em todo o mundo, que nunca tiveram contacto com a língua espanhola, cantam e percebem (porque existe legendagem simultânea) a mensagem que as personagens transmitem nas músicas.

"O formato tem também um estilo mais europeu que pode ser percebido pelo ritmo, guarda-roupa, pelos cenários, pela direção de atores e pós-produtores", explica Cristiana Nobili. A diretora de programação original da Disney EMEA (Europa, Médio Oriente e África) acrescenta ainda que este compromisso entre as características latinas de Violetta e as cambiantes europeias aconteceu para garantir que a série tivesse "um apelo verdadeiramente internacional". Patrícia Reis, responsável da Disney em terras lusas, admite que, por cá, houve dúvidas iniciais sobre a hipótese de dobrar as músicas. "Decidimos manter as músicas no original porque já tínhamos o exemplo de França e Itália, onde essa hipótese tinha corrido bem. Arriscámos e correu bem. Pais e professores dizem-nos que Violetta possibilita a introdução de uma nova língua na vida das crianças".

Para Patrícia Reis, o que faz as crianças identificarem-se com Violetta "é a música, a dança". "O casting é bastante equilibrado, entre rapazes e raparigas. Mas o elemento aglutinador é, de facto, a personagem da Martina Stoessel. As meninas querem ser como ela, que persegue o seu sonho de cantar, dançar, de querer ultrapassar as barreiras de viver num novo país. São temáticas muito reais, do nosso quotidiano. Os rapazes também acham graça, porque ela é gira."

Apesar de garantir que a coprodução entre a produtora argentina Pol-ka e a Disney tinha, desde o seu início, um potencial para cativar audiências, Cristiana Nobili admite: "nunca imaginámos que se tornasse este fenómeno". "Já tínhamos quebrado barreiras com séries infantis em formato telenovela mas Violetta elevou o patamar, porque tem um elenco muito talentoso e multicultural", acrescenta a responsável da Disney EMEA. Nobili explica ainda as razões que cativaram milhões de crianças no mundo inteiro, e que as puseram a cantar as músicas da série em espanhol. "Os telespectadores gostam da série porque se identificam com as reviravoltas da vida adolescente da Violetta - mesmo quando não dançam nem cantam no seu dia a dia. Sabemos que os fãs criam uma forte ligação devido às narrativas variadas, às personagens cativantes, à música que fica no ouvido e às divertidas coreografias", explica a responsável da Disney.

Álvaro Covões afirma ainda que "Violetta é um projeto que merece ser distinguido porque é latino, numa Disney que, normalmente, não é nada latina, é muito anglo-saxónica". "Considero que isto é uma grande vitória do mundo latino porque é um fenómeno mundial, que está a alastrar-se para o Norte da Europa, para surpresa de muita gente", afirma o diretor executivo da promotora de espetáculos. Covões revela que a intenção de trazer o concerto da série a Portugal já era antigo, mas que só foi concretizado neste ano. "Isto demonstra que os países latinos conseguem criar produtos com capacidade de internacionalização."

Nos meios de comunicação social argentinos, bem como nas redes sociais, já é garantido que a terceira temporada será a derradeira para Violetta. No entanto, Cristiana Nobili deixa no ar a possibilidade de haver continuidade. "Vamos ter de esperar para ver!" Por cá, os fãs da Violetta ainda vão ter de esperar para assistir à terceira temporada, que deverá ser emitida pelo Disney Channel em meados de 2015.

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