O que fazem eles entre novelas?
Ana Filipe Silveira e Ana Lúcia Sousa
08.JAN.2015

Eles passam meses e meses a dar vida a outras personagens, a ouvir "ação", "vamos repetir" ou "assim está bom". Mas o pior é quando chega o "corta" final. Como é que sobrevivem os atores nos períodos em que estão fora do ecrã? O que é que eles fazem desde que acordam e até que se deitam? Nós perguntámos, eles responderam.

Entram em casa dos portugueses todos os dias. Fazem parte da família, sentam-se à mesa com eles, fazem-lhes companhia a lavar a loiça, provocam--lhes o riso ou o choro durante meses a fio. Mas o que acontece aos atores quando a novela que alimentam chega ao fim? Alguns preparam-se quase de imediato para a trama seguinte, outros têm períodos em que deixam de trabalhar, pelo menos em televisão. E, em alguns casos, temporadas bem maiores do que as que desejariam.

Pedro Granger não tem um contrato de exclusividade com uma estação ou uma produtora de TV. Isto permite-lhe gerir a sua carreira de uma forma mais abrangente, o que, como o próprio garante à Notícias TV, não é um problema. "Não moldo a minha vida com base no que faço entre novelas porque além destas tenho outras atividades. É normal para mim estar dois a três anos sem trabalhar em ficção. Recentemente, calhou fazer Jardins Proibidos [TVI] a seguir a Sol de Inverno [SIC], mas esta foi a primeira vez que isso me aconteceu em 16 anos de carreira", começa por explicar o Vasco da trama da TVI, que, além de ator, também é apresentador. "É outra área de que gosto muito. Fiz duas edições de Ídolos, a primeira da Casa dos Segredos, O Elo Mais Fraco e o Rédea Solta. Em períodos entre novelas também costumo fazer cinema. Por exemplo, nos últimos anos fiz Sei Lá, o RPG e o Contrato. É nestes períodos que estamos também mais disponíveis para o mercado publicitário, apesar deste nos ocupar o ano todo. E faço dobragens, que também gosto muito", conta.

À semelhança de Pedro Granger, também Marta Melro encontra outras ocupações. "Quando estou a fazer uma novela dificilmente tenho tempo para fazer outras coisas. Por isso, quando estou parada, ou faço teatro, como já aconteceu, ou faço cinema e workshops, e vou a castings. Além disso, tenho a meu cargo a gerência do meu negócio de venda online de peças de roupa em segunda mão. Parada é que não estou", aponta a atriz, que está neste momento a gravar a próxima novela da TVI, Única Mulher, depois de quase dois anos afastada da ficção nacional.

Enquanto Marta Melro está a iniciar um novo projeto com uma presença assídua no ecrã, Vítor de Sousa despediu-se recentemente de Água de Mar, da RTP1, após oito meses de gravações. A falta de trabalho quando um projeto chega ao fim "é sempre um problema", reconhece o ator, acrescentando: "Nós dizemos que vamos de férias, mas o mais correto seria dizer: estou desempregado". Desta vez, ao contrário de muitas outras em que chegou ao fim sem previsão de ter novo emprego, Vítor de Sousa tem agora na calha um novo desafio. "Vou fazer uma peça de teatro com a Manuela Maria e a Sofia Alves, que será encenada pelo Celso Cleto. Depois de meses intensos e gravar Água de Mar vai saber-me bem a tranquilidade do teatro", observa.

Por outro lado, o ator também não deseja ficar demasiado tempo afastado do pequeno ecrã. "Espero que apareça um novo trabalho em televisão e não faço questão de ter uma personagem grande ou pequena. O cachê é sempre mais simpático e gosto de ter o meu pé de meia", admite.

O que Vítor de Sousa costuma amealhar com a participação em produções televisivas têm-lhe permitido sobreviver a temporadas sem trabalho. "Já me aconteceu ter interregnos assustadores. Por mais de uma vez fiquei cinco ou seis meses à espera de que o telefone tocasse. Aquilo que conseguimos juntar durante o tempo de gravação de uma novela não dá para ficar muito tempo parado", reconhece.

Quem está ausente do pequeno ecrã há já dois anos e meio é Delfina Cruz. A última vez que integrou o elenco de uma trama televisiva foi em 2011-2012, em Morangos com Açúcar. Desde então, tem ocupado "muito bem" o seu tempo. "O que faço é estar com os amigos, passear com a minha filha, ler, ver televisão e cinema, ir ao teatro... Este é maior período que estive sem trabalhar. É verdade que o descanso sabe sempre bem, mas ao final deste tempo todo já sinto necessidade de fugir desta monotonia", avança a atriz à nossa revista.

O "problema", confessa, é "não ser chamada". "Eu não vou à procura de trabalho nesta área porque acho que andar a pedir é mau. Fico à espera. As pessoas conhecem-me perfeitamente. Por isso não entendo este silêncio da TVI [com quem trabalhou nos últimos anos]. Sempre fui generosa e profissional, sempre cheguei a horas e sempre soube os textos, por isso não compreendo porque não me chamam", lamenta.

A fábula da formiga e da cigarra

Os atores com contratos de exclusividade garantem um salário ao final do mês, estejam ou não no elenco de uma novela. Julie Sergeant já teve a sua estabilidade financeira assegurada com um contrato com a TVI, que durou sete anos, mas agora, e à semelhança do que aconteceu com muitos outros atores, voltou a ser freelancer. Como é que, nestes casos, se gerem as contas? "Com muita cabeça e muita organização", responde. A solução é conhecida no meio: "Amealhar quando se tem trabalho de forma a dar para quando não se tem". "Eu já tenho 45 anos de carreira, já estou habituada a esta instabilidade. É como a história da cigarra e da formiga", compara a atriz.

A mesma fábula foi recordada por Pedro Granger. "A questão do dinheiro é importante e prende-se com a precariedade da profissão. Como é óbvio, quando estamos a fazer um trabalho televisivo, seja na área da ficção ou da apresentação, temos um salário mais fixo e consistente e nesta profissão, sendo menos segura no que diz respeito ao que vamos fazer a seguir, temos de ter consciência e ir poupando. É um bocado como a história da cigarra e da formiga", explicou o ator, acrescentando ainda que esta "é uma questão de formação". "Desde que comecei a trabalhar, aos 18 anos, que sempre tentei poupar e sempre tive consciência que não sabia como ia ser o ano seguinte", confidencia.

Já Marta Melro sublinha: "É bom fazer novela para depois termos o bombom de juntarmos dinheiro para poder fazer teatro, que como toda a gente sabe, neste país, não paga as contas a ninguém".

Sobre poupanças e mealheiros, Vítor de Sousa recorda que a mãe chegou a dar-lhe mesadas depois dele ter entrado nos 50 anos. "Ela preocupava-se muito comigo porque umas vezes eu tinha trabalho e outras não. Por isso, depositava dinheiro na minha conta. Era uma espécie de mesada, embora eu já tivesse 50 e tal anos", lembra o ator, admitindo ainda que tem dificuldade em ocupar o tempo quando fica desempregado: "Ir ao cinema atenua, mas não chega. Aproveito para ir ao teatro, para ler e, felizmente, sou muito solicitado para declamar poesia, quer em Lisboa, quer noutras localidades do país", exemplifica.

Nuno Janeiro está há ano e meio em Bem-Vindos a Beirais, da RTP1. "Esta série é um fenómeno e estamos a caminho do segundo ano de gravações. Ao longo dos meus dez anos de carreira já me aconteceu ter vários meses de paragem. Às vezes o final de uma produção não coincide com o início de outra e temos de recusar o convite", esclarece. A exemplo dos colegas, também Nuno Janeiro costuma fazer "um pé de meia": "Sou bastante poupado. Sempre me preocupei em ter o meu dinheiro. Antes de começar a trabalhar em moda, fiz de tudo um pouco, como vender gelados, montar estores, trabalhar nas obras ou numa loja de roupa".

Com outra idade, Delfina Cruz admite que o facto de ser reformado atenua os momentos de pausa entre produções televisivas. "Tenho duas reformas, a minha e a do meu marido, mas claro que quando trabalho o meu nível de vida dispara. Precavi-me sempre porque há 50 anos que faço isto e que sei que esta carreira é assim. Nestas altura, posso almoçar fora [risos], mas não dá para fazer uma compra de uma marca melhorzita, como gostava", frisa.

Ir à luta ou esperar que o telefone toque?

Ainda que diga que não é "de cruzar os braços", Vítor de Sousa confidencia que, nas alturas em que está parado, não faz contactos para participar em novos projetos. "Devia estar no sítio certo, com a pessoa certa, como por exemplo ir à apresentação de um livro. Às vezes nos eventos encontram-se as pessoas que se podem lembrar de nós para esta ou aquela novela". A falta de trabalho já o levou a questionar se não deveria mudar de vida. "Penso que ao fim de 50 e tal anos de carreira já se põe tudo em causa quando os meses passam e não surge um convite. Espero que se lembrem de mim. Com a idade que tenho posso sempre fazer papéis de pai ou de avô", atira o ator.

Por maiores que sejam as dificuldades, Julie Sergeant também nunca pensou em desistir, e acredita que a sua experiência a pode ajudar. "Claro que vou à luta, como vou sempre. E também espero que o telefone toque. Costumo estar atenta ao mercado, o que é natural para uma pessoa que vive de uma profissão que começa e acaba várias vezes num só ano. Mas nunca pensei em desistir. Isto é como os bons médicos: nem todos têm um consultório. O problema não está na carreira, está no país que temos. E eu, que sou inglesa e podia ter ido para fora de Portugal, nunca o quis fazer", assevera.

Marta Melro admite que também já passou momentos mais difíceis. Mas garante que nunca pensou em desistir por não estar a trabalhar em televisão. "Pensei sim, quando tive uma sobrecarga de trabalho tão grande que não tinha tempo para mais nada. Nem para mim, nem para a família ou para os amigos. Trabalhava 16 horas por dia. Foi na altura que estava a fazer Feitiço de Amor [TVI] e o teatro As Raparigas. Cheguei a um ponto de desgaste muito grande. O corpo não aguenta tantas horas de trabalho", refere.

O importante, conta Granger, é "não ficar de braços cruzados". "Uma das primeiras coisas que aprendi foi que não há que ter vergonha de mandar um curriculum. Não estamos a falar de pedinchar, de arranjar cunhas. Quando vamos para o mercado de trabalho, é nossa obrigação dar a entender que estamos disponíveis", acrescenta o ator, reforçando: "Não é ligar a pedir favores, é mostrar ao mercado que estamos disponíveis. Somos muitos e é normal que quem contrata não se lembre de todos".

Agentes para que vos quero?

Nuno Janeiro confia no seu talento, mas também conta com a ajuda do seu agente. E apesar de já ter estado alguns meses sem trabalho, diz que não se pode queixar. "Trabalho com o Paulo Araújo. O resultado disso acaba sempre por aparecer", acredita.

Sem agente está Pedro Granger. O ator defende que ter um representante "têm vantagens e desvantagens". "Hoje em dia, as agências começam a ser mais proativas, mas durante muitos anos o sistema era mais de negociador. E, para negociar, preferia ser eu, até porque estudei Direito. Hoje já há trabalhos que vão diretamente para essas empresas e, nesse sentido, é uma vantagem", justifica.

Vanessa Carmo, agente da L"Agence, que tem no seu espólio Cláudia Vieira, Jéssica Athayde, Pedro Teixeira ou Ricardo Pereira, explica que, "muitas vezes, quando os atores estão parados entre novelas é quando há mais trabalho". "Ou seja, quando estão a fazer uma novela acabam por ocupar todo o seu tempo e é difícil conciliar trabalhos. Nos períodos de pausa, procuram-se esses trabalhos, esses compromissos, ou algum tipo de formação, que também é muito importante", começa por explicar a agente, para a seguir acrescentar: "O nosso trabalho é promover castings. O que acontece é que o mercado tem muitas pessoas disponíveis e um número limitado de oportunidades. A nossa função é proporcionar que o ator seja considerado. Nós não escolhemos quem fica com o trabalho. Apenas propomos".

Delfina Cruz, uma das representadas pela L"Agence, diz que não compreende porque está parada há tanto tempo. "Não percebo o que está a acontecer. Há lá bons profissionais, por isso não entendo. Já falei com eles e respondem que o mercado está mau", afirma. Vanessa Carmo explica: "Quando olhamos para os guiões temos de ter em conta o que é pedido e umas das coisas a considerar, entre muitas, são as faixas etárias. As novelas têm uma tónica no elenco mais jovem", termina.

Com 50 anos de carreira, Delfina Cruz conclui: "A vida de um ator em Portugal é assim: de altos e baixos. Há alturas que temos muito trabalho. Depois, de repente, ficamos no meio da autoestrada."

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