Telejornal: a escola da informação que é espelho de um país
Por Nuno Cardoso e Márcia Gurgel
23.OUT.2014

É o programa mais antigo da TV portuguesa e está de parabéns, somando 55 anos de notícias e da nossa história. Antigos e atuais pivôs da RTP recordam as momentos vividos nos bastidores do Telejornal. Especialistas analisam a evolução deste formato.

18de outubro de 1959. A redação da RTP, situada nos estúdios do Lumiar, Lisboa, trabalhava desde as nove da manhã. A ocasião merecia um empenho extra por parte de jornalistas, operadores de câmara e técnicos da estação pública. Às 20.32 desse mesmo dia acontecia um momento histórico na televisão portuguesa: "Senhores espectadores, boa-noite! Vamos apresentar a primeira edição do Telejornal da RTP constituída por noticiário e atualidades do país e do estrangeiro." As palavras do jornalista Mário Pires marcavam o início do noticiário que completa agora 55 anos.

Vasco Hogen Teves, chefe de redação na altura, lembra-se este dia como se fosse ontem. "Chegámos à redação muito cedo, havia muito trabalho pela frente", recorda. Ainda assim, o nervoso miudinho não era o suficiente para atrapalhar a concentração, já que antes do Telejornal existiram outros blocos noticiosos. Mas Vasco Hogen Teves ainda sabe como foi o arranque deste noticiário. "A primeira notícia foi sobre as eleições administrativas para as juntas de freguesia, que se realizaram nesse dia."

Quando a RTP arrancou, em 1957, os portugueses sabiam das notícias através de um bloco de 15 minutos apelidado Noticiário, seguido do Jornal de Actualidades. A 18 de outubro de 1959 deu-se uma revolução na forma de dar notícias em televisão. "Decidimos seguir o que se fazia já nas televisões europeias", justifica. O Telejornal, adaptado do Telegiornale da televisão italiana, passou a ter 30 minutos e começou a intercalar os textos lidos com as imagens.

Na altura, a emissão do Telejornal incluía dois chefes, oito redatores, seis operadores de câmara e quatro datilógrafas. A redação era um espaço com 30 metros quadrados, contrastando, assim, com a redação atual da RTP, situada agora na Avenida Marechal Gomes da Costa e que tem cerca de 800 metros quadrados de área e um pé direito de 14 metros.

O estúdio do primeiro Telejornal era composto por um telefone cinzento, que por vezes era atendido pelo pivô de serviço, um mapa--múndi e dois maços de tabaco cujas marcas patrocinavam o programa. Cristina Esteves, que atualmente é um dos rostos da informação da RTP, recorda o facto de os pivôs fumarem enquanto liam as notícias. "Pode até ser uma coisa lateral, mas é algo que recordo assim que penso no Telejornal que via quando era criança", conta.

"Recordo o ambiente com saudade. Havia muita camaradagem"

Para matar as saudades daqueles tempos, Vasco Hogen Teves, que dedicou 20 anos da sua vida à informação da estação pública, admite que ainda hoje marca jantares com alguns dos colegas ainda vivos. "É uma forma de fazermos uma viagem no tempo", destaca. O antigo chefe de redação solta uma gargalhada ao recordar uma história caricata que presenciou. "Havia umas malandrices. O Manoel Caetano, que era uma das pessoas que apresentavam o Telejornal, era um grande brincalhão. Uma vez estava a apresentar o noticiário com o Carlos Cruz e lembro-me de que o Manoel Caetano resolveu começar a atirar os clipes para cima do Carlos Cruz, mesmo enquanto ele estava na leitura das notícias, porque ele tinha a perceção de que a câmara não o apanhava."

Dina Aguiar é um dos rostos mais antigos e emblemáticos da RTP. Ela, que agora está à frente do formato Portugal Direto, também recorda com júbilo os tempos em que passou pelo principal noticiário da estação pública. "Uma vez fiz um noticiário do fim para o princípio", começa por contar, entre risos. "O alinhamento estava todo trocado. Eu lia os pivôs, mas as peças não entravam. O operador de câmara estava constantemente a fazer-me sinal. Foi um momento histórico", acrescenta.

"Era um jornal muito bem feito, embora tecnicamente não se possa comparar ao que é feito nos dias de hoje", sublinha Joaquim Letria, que também ocupou a cadeira de pivô e de diretor de Informação na RTP. "As pessoas eram capazes de ficar surpreendidas com a qualidade de muita gente. Em alguns casos muito superior à que hoje, infelizmente, temos", assevera.

"Companheirismo" e "alegria" são duas das palavras que vêm à cabeça de Fátima Campos Ferreira quando recorda a sua passagem pelo Telejornal. A atual apresentadora de Prós e Contras recorda o momento em que recebeu um amuleto das mãos de Fernando Pessa para dar sorte na sua estreia, a 1 de janeiro de 1995. "Ó miúda, hoje vais fazer isso com o meu pin de ouro", confidencia Fátima, reproduzindo as palavras do malogrado jornalista. "Ele dizia: "Tu vais ser a herdeira do meu pin e o orelhas [como Fernando Pessa apelidava o pivô José Rodrigues dos Santos] vai ser o herdeiro dos meus fatos"", completa.

"Bons tempos. Uma verdadeira escola." Manuela Moura Guedes partilha a opinião dos antigos colegas, mas também conta que havia momentos penosos que hoje já não existem graças à evolução tecnológica. "Acompanhar uma campanha eleitoral era um pesadelo. Eu andei 15 dias a acompanhar as presidenciais e não conseguia dormir. Dormia dez minutos entre as paragens dos candidatos e era porque eu já não aguentava mesmo. Os comícios acabavam tardíssimo. Eu montava as máquinas no meu quarto e enquanto toda a gente ia dormir eu passava a madrugada a ver as imagens."

"Telejornal constituiu-se como uma marca para a RTP e um símbolo para o país"

Antes do aparecimento das privadas, a informação televisiva resumia-se à que era exibida na estação pública. João Adelino Faria ainda é do tempo em que as pessoas "paravam para ver e ouvir" as notícias. "Na altura imaginava que gostava muito de um dia estar ali sentado", confessa. Cristina Esteves admite que é "um privilégio apresentar um programa tão emblemático". "Independentemente do canal, toda a gente refere-se ao noticiário das oito como o Telejornal. Isso é um sinal de que este espaço é uma referência", esclarece.

Judite Sousa, outro dos rostos emblemáticos da história deste noticiário, não tem dúvidas da importância que este espaço teve e ainda tem. "O Telejornal constituiu-se como a principal marca da RTP e um símbolo para o país. A sua importância afirma-se por ter sido o primeiro noticiário televisivo num tempo em que só existia a RTP, mas fundamentalmente pelo facto de o Telejornal ter refletido a história do Portugal democrático durante cerca de 20 anos, até ao aparecimento das televisões privadas", argumenta a atual subdiretora de Informação da TVI.

A Revolução de Abril e o nascimento das privadas: o que mudou no Telejornal?

A opinião é geral: no que toca a conteúdos editoriais, existe um Telejornal pré-25 de Abril e outro pós. "Antes da revolução, era informação do regime, apesar de tecnicamente bem feitos e apresentados", recorda Joaquim Letria, que conduziu o formato entre 1976 e 1978. Era uma época interessante, era livre. Eu apanhei um período ótimo, de loucura, o pós-25 de Abril era o vale-tudo", conta. O professor catedrático Francisco Rui Cádima explica: "Antes do 25 de Abril, o Telejornal é marcado por ser fundamentalmente um forte aparelho ideológico do Estado, em que há um mecanismo de vasos comunicantes muito intenso entre o sistema político e do governo e a informação televisiva. O Telejornal que é mais fechado no período salazarista, no período do marcelismo é aparentemente mais aberto, com algum enfoque a novas questões, como a área internacional."

Fátima Campos Ferreira, que apresentou o noticiário a partir de 1995, conta que foi precisamente a 25 de Abril de 1974 que se recorda de ver o primeiro Telejornal. "O país parou aquela hora. Lembro-me de que foi naquele momento que percebi a importância das notícias e do Telejornal. A minha família estava toda a assistir e a ver o que tinha acontecido", recorda.

De resto, com a chegada das privadas SIC e TVI, em 1992 e em 1993, respetivamente, o Telejornal passava a ganhar concorrência na informação em horário nobre. Terá isso mudado a sua essência? Judite Sousa, que começou a apresentar o noticiário no início da década de 90, não duvida. "As televisões privadas levaram necessariamente a uma competitividade maior do Telejornal. Entendo que o serviço público de TV tem de ser público, o que é, do meu ponto de vista, a base de existência de qualquer órgão de comunicação social", conta a atual subdiretora de Informação da TVI. Dina Aguiar, que conduziu o programa mais antigo da TV portuguesa durante a década de 1980, revela que a concorrência "obrigou as pessoas a puxar muito mais pela imaginação. E obrigou os responsáveis pelo Telejornal a estarem atentos ao que os outros faziam."

Francisco Rui Cádima acrescenta que a entrada das privadas em ação veio trazer "a procura de novas vozes, de uma nova pluralidade, de uma nova diversidade de vozes na sociedade portuguesa e, portanto, aparecem mais pessoas a falar sobre acontecimentos. Antes disso, a RTP estava muito limitada a um conjunto de atores sociais típicos: os sindicatos, o poder e o partido da oposição. As privadas vêm trazer aqui aquilo que se chama vox populi, uma maior diversidade de atores e comentadores, especialistas, analistas, académicos. Aquilo que a RTP fez foi reconverter um pouco o seu espaço muito institucionalizado e voltado para o próprio umbigo, o seu e o das instituições mais representativas do Estado e dos atores sociais para correr atrás do prejuízo e ir buscar um pouco a tendência que se estava a verificar nas privadas, sobretudo na SIC, que começou muito forte", explica.

Felisbela Lopes concorda que existiu algum mimetismo com o nascimento das estações de Carnaxide e de Queluz de Baixo. "A partir de 1992, o noticiário já começou a ter algumas marcas daquilo que convencionamos ser marcas das televisões privadas." Manuela Moura Guedes, ao serviço do Telejornal, recorda bem o nascimento da SIC. "Tínhamos uma audiência inacreditável. Mas pensei: "Ninguém vai estar a ver, vai toda a gente ver a novidade da SIC. Meu Deus, vamos ficar sem audiências." Lembro-me perfeitamente da sensação de pensar: "Agora vão ver os outros. Estou sozinha." No dia seguinte quando fomos ver as audiências, estava apavorada e fiquei surpreendida por a SIC só ter feito 4%", recorda.

Atualmente, o Telejornal é o noticiário mais curto das generalistas em horário nobre, com uma hora de duração. Será isso uma vantagem para a RTP? "É, claramente. Uma hora é suficiente. O esticar o noticiário nem sempre significa diversificar, contextualizar, dar informação adicional. Significa dizer faits-divers", conta Felisbela Lopes.

Mas... como será daqui a 55 anos?

Olhando para trás, a mudança na forma de fazer jornalismo em televisão entre 1959 e 2014 é gigante. E dá que pensar. Afinal, como será um Telejornal daqui a 55 anos? Moura Guedes tem esperança de que não se substitua o lado humano de um noticiário. "A minha maior dúvida é se vão prescindir de pessoas. Luto muito pelas pessoas. Não há nada que as substitua." João Adelino Faria concorda. "Não sei se existirão nessa altura. A informação, temo-la hoje quando queremos, onde queremos, a que horas queremos. Está nas nossas mãos, no tablet, no smartphone. Duvido muito que os jornais generalistas sobrevivam mais meio século, ou talvez esteja enganado! Talvez continuem noutras plataformas, com outra dimensão, talvez com um jornalista virtual! [risos] Por muita tecnologia que seja inventada, há uma coisa que é insubstituível: a empatia dos olhos do ser um humano com outro, o que dá a informação e o que recebe."

Já Joaquim Letria frisa: "Já não haverá noticiários! Vamos buscar à net o que queremos para os nossos próprios telejornais." A opinião de Dina Aguiar vai pelo mesmo caminho. "Daqui a 55 anos cada um faz o seu Telejornal. Mas não descarto os jornalistas. Vão ser ainda mais exigentes, o acesso à informação está a ser tão imediato e é tão acessível, que as pessoas vão ser muito mais exigentes. Os jornalistas têm de facto uma função na sociedade. Somos a consciência social. Temos esse papel e espero que não o deixemos de o ter", remata.

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