E... de especial, de emotiva, de eficaz, de extrovertida, de Ellen
Nuno Cardoso
20.MAR.2014

Quis ser veterinária, mas a TV falou mais alto. Há duas décadas, estreou-se em nome próprio no ecrã com a sitcomEllen. Desde então, soma um talk show de sucesso, uma legião de fãs e um império de milhões. Afinal, o que faz desta rainha do daytime um fenómeno mundial?

Mal sabia ainda falar e já era apaixonada por animais. Em criança, passava os dias a salvar pássaros e gatos recém-nascidos, o que a fez sonhar ser veterinária enquanto crescia. Felizmente para os 13 milhões de seguidores no Facebook, os 28 milhões de admiradores no Twitter e os mais de quatro milhões de espectadores que a veem todos os dias na TV só nos EUA (tornando-se a rainha do daytime), a paixão pelos amigos de quatro patas permanece até hoje, mas o fascínio pelo humor e pela comunicação falou mais alto.

Numa altura em que se celebram 20 anos desde a sua estreia em nome próprio na televisão, com a sitcom Ellen, em março de 1994, o que tornou Ellen DeGeneres o fenómeno mundial que é hoje e que a ajudou a angariar um império de 40 milhões de euros, uma legião de fãs pelos quatro cantos do globo e uma das dez celebridades mais influentes do mundo, eleitas pela revista Forbes? Como se explica o fator E?

Bárbara Guimarães confessa "gostar muito" da apresentadora de The Ellen DeGeneres Show (o formato de sucesso que já soma 11 anos e que é exibido por cá na SIC Mulher), muito pela sua forma de ser como pessoa. "Gosto muito dela. Acho a Ellen extraordinária, uma mulher interessantíssima, cheia de garra e com um enorme sentido de humor. Acima de tudo, o que mais aprecio nela é a sua atitude, ela tem uma personalidade forte, mas muito própria, nota-se que a Ellen é genuína, aquilo é ela, aquilo é Ellen", conta a apresentadora da SIC. Além de frisar que adorou vê-la recentemente como anfitriã da cerimónia dos Óscares, acrescenta: "O talk show dela é muito divertido, aquilo é uma animação total, sempre com entrevistas às grandes estrelas, ela dança, ela nunca para, faz tudo", ri-se Bárbara Guimarães.

Leonor Poeiras, que diz ser "a maior fã de Ellen há uns sete ou oito anos", também evoca a personalidade da apresentadora norte-americana e a sua atitude profissional de 56 anos como uma das grandes causas do sucesso. "Gosto que ela seja uma mulher real, sem tabus, sem complexos. Gosto da forma como ela toca em todos os assuntos da atualidade, toca nas feridas sem nunca humilhar ou ofender, expressa-se livremente. Isto é ter power! A Ellen tem os americanos na mão. Porquê? Porque ela é aquilo, genuína, luta pela justiça social e muda mentalidades no mundo. Não se leva muito a sério, apesar de ser levada muito a sério! Domina com o seu sorriso contagiante e tem a capacidade de surpreender todos os dias com as coisas mais simples, seja com a dança com que inicia diariamente o programa em estúdio, seja com novos talentos que descobre online, com as rubricas que nos deixam com dores abdominais de tanto rir, seja pelos projetos de solidariedade que promove ou as pessoas que ajuda... Ninguém fica indiferente", elogia a apresentadora da TVI.

Pedro Boucherie Mendes, diretor dos canais temáticos da SIC, adianta que o The Ellen DeGeneres Show é "muito importante" para o universo da SIC Mulher, sendo "um dos mais vistos" do canal, e aponta a originalidade como uma das mais-valias da mulher com ascendência francesa, alemã e irlandesa e que nasceu em janeiro de 1958 na pacata zona de Metairie, no estado do Luisiana, EUA. "Como em todos os casos de enorme sucesso, é relativamente simples apontar os motivos: a sua enorme capacidade de trabalho e de se reinventar, aliada ao talento e às equipas com que trabalha, e a tal telegenia que as grandes figuras da televisão vão buscar sabe-se lá onde. Acho que a Ellen consegue outra coisa que passa por fugir à receita típica dos talk shows apresentados por mulheres: não há apelo à lágrima, receitas e dicas de poupança a toda a hora. Há, sim, um programa aberto, divertido e cheio de improviso", explica o responsável de Carnaxide.

Iva Domingues, outra fã confessa da apresentadora, conta que o humor, que marcou o início de carreira de Ellen [estreou-se como stand-up comedian em 1981, no Clyde"s Comedy Club, em Nova Orleães, numa noite que impressionou a indústria e a levou em digressão pelos EUA, em espetáculos de comédia], faz dela única no panorama televisivo. "Ela tem tudo, não falha nada. Sou suspeita porque gosto muito dela. Não temos aquele tipo de apresentadora em Portugal, ela fez stand-up, escreve os seus textos, tem graça natural, tem os timings certos, ela gere os silêncios como ninguém e tem uma aura que a acompanha. Agora, tem obviamente uma equipa extraordinária e nota-se que ela trabalha muito e que é muito criativa. A Ellen tem um lado muito natural, tão verdadeiro, que faz dela uma pessoa muito especial", explica a cara de Somos Portugal, da TVI.

Nilton acredita que o segredo está num humor que caracteriza Ellen e que poucos comediantes conseguem atingir. "Ela tem uma arma excelente, que é conseguir fazer um humor acutilante, que espicaça mas que não é ofensivo nem polémico. Muito poucos conseguem chegar a esse equilíbrio. Ela consegue chegar a todo o tipo de público sem ser lamechas nem popularucha. Não existem muitas mulheres com a piada dela. O humor da Ellen encaixa nela como encaixaria noutro homem qualquer, porque ela é transversal e deixou cair os clichés, o humor fácil. Não chega lá e só porque é mulher vai fazer piadas sobre homens. Foi a primeira mulher humorista a romper com isso", conta o apresentador de 5 para a Meia-Noite, da RTP1, e radialista da RFM.

Já Nuno Markl realça o equilíbrio entre o lado humano e humorista de Ellen. "Acho que o segredo dela está naquela coisa bizarra que ela conseguiu transformar num conceito de sucesso: ser 50% Jerry Seinfeld e 50% Oprah Winfrey", conta o comunicador. E ressalva a mais-valia que é a apresentadora saber rir-se de si própria: "Não se consegue fazer as coisas de outra maneira. Começarmos por gozar com nós próprios, expondo as nossas fraquezas, transformando-as em material de comédia, é meio caminho andado não só para chegar ao público mas também para fazer autoterapia!", diz Markl.

A mulher dos sete ofícios

Antes de atingir o sucesso e a fama mundial, Ellen desdobrou-se em vários ramos: primeiro quis ser veterinária, depois acabou por pintar casas, serviu à mesa em restaurantes, foi paisagista, etc. "Fiz tanta coisa. Pensei que o facto de ser engraçada era apenas um traço de personalidade. Fazer carreira disso nunca foi uma opção planeada", recorda a apresentadora. Mas a verdade é que o humor começou a ser uma parte essencial da vida de Ellen, principalmente a partir dos 16 anos, quando os pais, Elizabeth (terapeuta da fala) e Elliott (mediador de seguros), se divorciam. A passar por momentos complicados, a apresentadora recorda que se mudou então para o Texas, com a mãe, enquanto o seu único irmão, Vance (hoje produtor musical), ficou com o pai. O humor foi o seu escape. "Lembro-me que tentei ajudar a minha mãe a ultrapassar o desgosto amoroso. Aproximou-nos imenso e fez-me perceber o poder que o humor pode ter", diz.

E assim, em 1981, a mulher que cita Woody Allen e Steve Martin como duas das suas maiores influências, sobe ao primeiro palco num espetáculo de stand-up comedy. O feedback da indústria levou-a a iniciar uma série de espetáculos pelo país e o seu nome, a pouco e pouco, foi ganhando visibilidade dentro do universo dos comediantes. Cinco anos depois, torna-se a primeira humorista feminina a participar no popular programa The Tonight Show, na altura apresentado por Johnny Carson. A sua personalidade e o seu à-vontade em direto não passam despercebidos. Dois anos depois, estreia-se como atriz ao ser convidada para participar na série de comédia Open House, da Fox, e em 1993 para o filme Coneheads.

Mas é só um ano depois, em 1994, que surge a sua grande rampa de lançamento, com a estreia em nome próprio, com a sitcomEllen, que protagonizou durante cinco anos com êxito comercial. Foi com esta série que a atriz recebeu três nomeações para os Globos de Ouro e quatro para os Emmy. A rampa de lançamento estava lançada. A popularidade de DeGeneres conheceu um novo pico em 1997, quando assume publicamente que é homossexual, na capa da revista Time e no programa de Oprah Winfrey. Atacada pela Igreja conservadora mas apoiada pelos movimentos gay norte-americanos, Ellen mostrou-se indiferente à polémica. "Nunca escolhi ser nada senão humorista. Por acaso, também sou gay. Não quis manter um segredo, por isso anunciei-o. De repente, tudo isto se tornou em algo político", disse na altura. A apresentadora já tinha contado à família, com 21 anos, assim que iniciou um namoro com a jovem poetisa Kathy Perkoff. Depois dela, Ellen namorou com as atrizes Anne Heche (três anos) e Alexandra Hedison (quatro). Mas foi Portia de Rossi que arrebatou o seu coração. Apesar de não querer filhos, Ellen frisa que se sente "mais do que completa" ao lado da atriz por quem se apaixonou há dez anos e com quem se casou em 2008, numa boda de luxo seguida de perto pelos media.

Pouco depois de se assumir chega à TV a versão renovada da série que antes protagonizou, agora chamada The Ellen Show, em 2001. Desta vez, as audiências desiludem e a norte-americana afasta-se do ecrã por dois anos. "Tinha tudo o que sempre desejei, mas não me sentia bem [antes de me assumir]. Por isso decidi ser honesta sobre quem sou. Foi estranho: as pessoas que me adoravam por ser divertida deixaram de gostar de mim por ser eu própria."

Ainda assim, recompôs-se do tombo e, dois anos depois, em setembro de 2003, estreia o seu primeiro talk show, o The Ellen DeGeneres Show. Onze temporadas e quase dois mil episódios depois, é um caso raro de sucesso, sendo transmitido em quase 30 países. Foi à frente deste divertido formato que Ellen recuperou o público que tinha, construiu um império de milhões de euros e se tornou uma das pessoas mais influentes e acarinhadas nos EUA. Foi também com este programa que DeGeneres já conversou com praticamente todas as figuras de relevo de Hollywood.

Atualmente, Ellen tem a sua própria produtora de TV, a Very Good, e um restaurante vegetariano em Los Angeles, que abriu recentemente, e diz-se apaixonada pelos "pequenos prazeres da vida", mas em especial por piza, gatos (é uma acérrima defensora dos animais, tendo dois cães) e vodka, além de não passar sem as suas séries preferidas, True Detective, Revenge e Scandal.

Faz falta um Ellen DeGeneres Show à portuguesa no nosso daytime?

Num talk show de daytime em que o humor, a boa disposição e o imprevisto são as palavras de ordem, faz falta um formato deste género no mesmo horário na nossa TV?

Leonor Poeiras atira: "Não só me via a apresentar algo deste tipo, como há três anos tive a oportunidade de fazer alterações ao Agora É Que Conta. A Fátima Lopes apresentou este formato e ao fim de três meses entrei eu. Nessa altura, pedi à TVI e Endemol um DJ para dinamizar e pedi para introduzirem jogos tradicionais divertidos como o jogo das cadeiras ou cabra cega. No fundo, trouxe um bocadinho da Ellen para a TVI. Mal sabe ela", sorri a apresentadora. E adianta: "Ela é a minha grande referência internacional, não só pelo perfil mas pelas causas que abraça. O The Ellen DeGeneres Show é completamente a minha cara. Ainda há pouco tempo assumi que o daytime, para mim, seria perfeito com conteúdos exclusivamente otimistas, divertidos, alegres. Ela partilha muito com o público boa parte daquilo que é e pensa. É muito importante isto! Mas sem esquecer que a primeira pessoa com quem ela goza é com ela mesma.. E isso poucos querem fazer. Nos Óscares, ela vestiu-se de princesa, foi hilariante! A Ellen não é uma princesa, nunca será. Não tem medo do ridículo e eu revejo-me nisso a 100%", conta Leonor Poeiras.

Nilton, que conduz um 5 para a Meia-Noite na RTP1 em que o humor e as entrevistas também andam de mãos dadas, frisa que "os programas de daytime precisam de um formato assim". "A realidade é que os programas da tarde têm baixado a fasquia, falta humor, um estilo mais descontraído, boa disposição. Porque é que acham que o Goucha e a Cristina vencem de manhã? Ou porque é que acham que O Preço Certo tem as audiências que tem? Porque são programas divertidos, que alegram, que puxam para cima. Acredito que a felicidade ainda vende mais do que a tragédia e acho que os programas de daytime vão caminhar, cada vez mais, para o género do talk show da Ellen", diz Nilton.

Pedro Boucherie Mendes confessa que faz falta um programa destes durante o dia na TV, mas ressalva que "a nossa televisão é diferente porque o nosso público generalista é diferente" do norte-americano.

Nuno Markl defende: "O João Baião e a Tânia Ribas de Oliveira têm momentos magníficos de "desopilanço"! Há pessoas com muito talento a trabalhar no daytime em Portugal, mas o peso das fórmulas é avassalador. Acho que se pode arriscar um bocadinho mais e acho que há grande potencial na ideia, que tem andado a ser falada, de deixar o Herman José à solta nesse horário", diz.

Iva Domingues remata: "A Ellen é uma inspiração, quem me dera um dia ser assim! Quem dera a todas nós, apresentadoras, termos um programa como o dela, as rubricas que ela tem, os convidados. Quando a Oprah estava no ar ao mesmo tempo que a Ellen, eu já preferia a Ellen, tem mais que ver comigo. Então aquele início em que ela entra a dançar hip hop, que eu adoro... Adorava poder começar um programa assim!", diz a apresentadora, divertida.

comentários