Especialista em empadão de carne já foi uma "betinha freira"
Tiago Henriques / Foto Gerardo Santos (Global Imagens)
23.JUN.2014

No Conservatório chegou a sofrer por ser tida como comediante. Hoje dá nas vistas num papel dramático, em Mulheres, da TVI. Viciada em café, apaixonada por viagens e flores, assim é Maria Rueff, que em criança imitava peixeiras enquanto a mãe cozinhava.

"A Maria sofreu um bocadinho, foi um bocadinho ostracizada pelos professores no conservatório. Por ser tida como uma comediante, mas por outro lado ela tinha igual talento também para o drama." As palavras são de Sofia de Portugal, amiga e colega de Maria Rueff nos tempos do Conservatório. Hoje, e depois de muito fazer rir os portugueses, a atriz dá nas vistas num papel dramático na novela Mulheres.

E foi rodeada delas que cresceu. Maria de Deus Rueff de Saro Negrão nasceu em 1972, em Moçambique, já a mãe, Maria Julieta, tinha 42 anos. À sua espera estavam quatro irmãs, "a mais nova com 13 anos e a mais velha com 18", para além de um rapaz, o único da família, a par do pai. Por isso mesmo, "brincava muito sozinha" ou... com a progenitora, uma das grandes influências da sua vida. "Lembro-me de a minha mãe estar a cozinhar ou a amanhar peixe e eu aproveitar isso para fazer de varina. Ia sujar as mãos no sangue do peixe, fingia que estava a vender e a mexer nas notas, no avental, como via as peixeiras a fazer no mercado", recordou em entrevista ao Alta Definição.

A arte de imitar outras pessoas chegou cedo à vida de Maria Rueff. Ainda em pequena, já dava indícios disso, quando imitava vizinhos ou familiares. Mas nunca soube bem o que seria quando crescesse. Chegou a pensar ser professora, cabeleireira, rainha, advogada... Curiosamente, não entrou em Direito por uma décima e acabou por ir parar ao Conservatório de Teatro.

Quem se recorda bem de Maria Rueff nesses tempos é Manuel Wiborg, o homem que a faz sofrer na novela da TVI. "Ela era muito divertida, era impossível não ser amigo dela. Demo-nos muito bem, era um encanto ser colega dela. Nas aulas teóricas tinha ótimas notas, era muito inteligente", conta à Notícias TV, acrescentando: "Andava sempre atrás de mim, estava sempre a meter-se comigo, rosnava-me quando eu passava nos corredores. Às vezes, tinha de fugir dela, mas tudo na brincadeira." No Conservatório, Maria era conhecida como "a betinha". "Ela era, de aparência, uma betinha freira, usava mocassim, saia travada por baixo do joelho", diz Sofia de Portugal. Já nessa altura era uma "revolucionária". "Andava de camisolão, uma boina à Che Guevara e ia às Festas do Avante. Toda cheia de ideais, era mesmo a comuna do liceu. Mas, acima de tudo, sou humanista", diz Rueff numa entrevista. Do Conservatório à televisão foi um pequeno passo.

Início da década de 90, Costa de Caparica, bar de Joel Branco. Os então desconhecidos Maria Rueff e João Baião estavam a dar um café-concerto. Na plateia, algumas caras conhecidas como Herman José. "Fiquei imediatamente encantado com a energia e o talento dela. Aquela pequena-grande diferença que separa o "jeitinho" do génio despertou-me a atenção nela", relata o humorista. Mas foi Ana Bola a primeira a dar-lhe a mão, então para o programa Os Bonecos da Bola, depois de Rueff ter feito algumas aparições em A Grande Noite.

Nuno Artur Silva, diretor das Produções Fictícias e que desde esse momento trabalha com a atriz, logo anteviu uma grande carreira. "Ela já era uma força da natureza, uma comediante com grandes recursos, uma miúda cheia de energia e com uma capacidade de criação de figuras muito grande", frisa à Notícias TV. Ao longo dos últimos anos, vários projetos os juntaram e na memória ficam episódios vividos no pátio das Produções Fictícias. "Lembro-me de ela, com aquela sua força e empenho que impõe a todos os seus projetos, uma vez ter deslocado uma costela ao Nuno Markl, ao dar-lhe uma pancada no ombro", conta, entre risos.

"Mulher rigorosa", "boa conversadora" e "muito divertida", Maria Rueff é apaixonada por flores. Quem o garante é António Pires, encenador e amigo desde os tempos do Conservatório. "Ela tem um jardim ótimo, muito cuidado, com uma horta. Tem muitas flores do campo", desvenda. Joaquim Monchique, outro amigo há mais de vinte anos, tem por hábito presentear a colega com ramos de flores. "Ela gosta muito de receber flores, mas não são raminhos com quatro flores. São ramos de flores à séria. Gosta de bons arranjos, grandes, o que é sempre uma fortuna", brinca aquele que já deu a "volta ao mundo" com Rueff. "Viajamos imenso. Ainda este ano fomos à China, já estivemos na Tailândia, em Buenos Aires, em tantos, tantos locais." Também Herman José já viajou muito com a amiga. "A fase mais intensa da nossa vida foi passada no meu barco navegando pelo Mediterrâneo. A Maria revelou-se uma excelente marinheira e mestre na arte de bem inventar neologismos na língua espanhola, sempre que precisava de interagir com os cidadãos ibicencos", destaca. Sofia de Portugal corrobora. "A Maria aprende sotaques e línguas com muita facilidade. Ainda recentemente numa peça que fizemos juntas ela predispôs-se a cantar uma música em alemão perfeito e não falava alemão sequer. Ela tem um ouvido fora do comum que lhe permite apanhar sotaques, línguas, pronúncias."

Com um vasto gosto musical, que vai desde o heavy metal à música brasileira, Maria Rueff tem ainda uma boa voz, assegura Sofia de Portugal. "Ela canta extraordinariamente, de tudo um pouco, mas sobretudo música tradicional portuguesa." António Pires sabe bem disso. "Ela cantou num grupo coral de mulheres da Beira Litoral. Mas há ainda outra coisa incrível na Maria: ela sabe tocar adufe, que é algo com um grau de dificuldade grande", destaca.

Joaquim Monchique aponta outro talento da amiga: a cozinha. "Ela é uma boa cozinheira. Sabe fazer muito bem empadão de carne, de que eu gosto muito." Com Herman José aprendeu a dominar a cozinha italiana. "Sou pessoalmente responsável por lhe transmitir muito know how em termos de bem cozinhar "pasta"", desvenda o humorista.

Apaixonada por literatura, Rueff é viciada em café. "Até lhe ofereci uma máquina para ter no camarim", admite Joaquim Monchique. E é uma "fumadora compulsiva". "Gostava que ela não fumasse tanto. Mas faz parte da forma de estar dela, dos seus nervos. Às vezes brinco e digo que ela é sócia honorária da Tabaqueira", graceja Vítor de Sousa.

"Filha exemplar", Maria Rueff é ainda uma "mãe guerreira", da pequena Laura, de nove anos, fruto de uma relação com José Pedro Vasconcelos, a que se seguiu outra relação mediática, com o humorista Bruno Nogueira. "A Maria tem um amor tremendo à Laura. A maternidade trouxe-lhe um lado mais generoso para com o mundo, não que ela não o fosse, mas ficou ainda mais ao ser mãe", remata Sofia de Portugal.

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