O "CR7 das conversas" sem jeito para trabalhos manuais
Tiago Henriques
26.DEZ.2014

"Belíssima cozinheira", mulher "divertidíssima", a apresentadora de A Tarde É Sua tem "memória de peixe-balão". E já lidera as tardes da TVI há quatro anos.

"Ela tem o melhor ombro do mundo. É isso que a distingue dos demais apresentadores. Ninguém na televisão nacional ouve como ela." As palavras são de João Patrício, realizador de A Tarde É Sua, amigo há vários anos, e espelham aquilo que a apresentadora tem construído ao longo de vinte anos de carreira. "Trabalhar com ela é um descanso. Digo mesmo que é o Cristiano Ronaldo das conversas. Ao longo dos anos desenvolveu uma técnica inigualável. Tem o dom de transformar a cadeira do convidado numa espécie de divã de psicologia e domina a conversa", afirma. A sua memória, porém, é seletiva: "Digo-lhe várias vezes que tem uma memória de peixe-balão. Ela é muito esquecida. Se fizer um programa com a Fátima hoje e acontecer alguma coisa caricata, daqui a 48 horas ela já não se recorda. Quando lhe contamos, ri-se como se fosse a primeira vez. É muita informação naquele disco rígido. Acontece tanta coisa em cena que ela depois já não se recorda", aponta Nuno Eiró.

Nascida a 13 de maio de 1969, Maria de Fátima Eleutério Lopes viveu parte da sua infância no Barreiro, margem sul do Tejo, com os pais e a irmã. "Nunca" foi rebelde, como a própria já revelou, mas sim uma "adolescente muito crítica e insatisfeita com tudo". Aos 8 anos foi viver com os pais para Moçambique, onde permaneceu até 1980. Aprendeu a adaptar-se ao pouco e não tem dúvidas de que esta foi uma "lição de vida maravilhosa", apesar de ter vivido momentos de muita dificuldade. "Cheguei a estar seis meses a comer arroz trinca - aquele que se dá aos cães -, hoje em dia se tenho, tenho, se não tenho, siga para bingo. Foi uma das coisas que aprendi", contou na mesma entrevista.

No terceiro ano do curso de Comunicação Social escolheu a especialização em marketing. Escreveu para o jornal Diário Popular, colaborou com a Rádio Minuto mas foi como gestora de conta de uma empresa de audiotexto que viu a sua vida mudar. Era presença assídua nos corredores de Carnaxide, apesar de não trabalhar por lá, onde a conheciam como "a menina dos telefones" e tornou-se apresentadora por culpa de Emídio Rangel, à época diretor-geral da SIC, que a desafiou a fazer um casting para substituir Alexandra Lencastre em Perdoa-Me. Estávamos em 1994 e ainda hoje Piet-Hein Bakker, diretor da produtora Endemol na altura, se recorda dos primeiros passos de Fátima Lopes: "Percebi que tinha um talento natural para a TV. Depois do casting não houve dúvidas e hoje, sempre que vejo imagens da altura, rio-me bastante por causa do cabelo, que era muito anos 1990", começa por recordar o produtor à Notícias TV, acrescentando: "Quando fizemos o Surprise Show (1995), ela já tinha crescido muito profissionalmente. Havia variadíssimas versões internacionais e a nossa era uma das melhores. Ela foi muito elogiada lá fora", completa.

Mulher de fácil trato e "bastante acessível", a apresentadora da TVI "não é muito diferente na sua vida daquilo que apresenta no ecrã". "A Fátima não consegue fingir, tem de ser ela própria durante 24 horas", conta João Rolo, estilista e a quem a comunicadora trata por irmão. Nuno Eiró corrobora: "Ela é empática, próxima, solidária e consciente. Às vezes acho que as pessoas a tomam por mais séria do que é, no sentido de ser muito divertida, muito ramboieira, com muita graça."

Quem com ela trabalha destaca o respeito com que trata os colegas. "Já no início da carreira era uma pessoa que tinha imensa vontade de aprender. Respeitava muito as equipas e não dava problemas, tratava bem toda a gente. Às vezes nós, produtores, precisamos de um manual para trabalhar com alguns apresentadores. E no caso da Fátima isso não era preciso", recorda Piet-Hein Bakker.

Para além do dom de comunicar, Fátima Lopes soma seguidores na cozinha... Que o diga João Patrício, que se perde com o seu bacalhau com natas. "Ela é uma brilhante cozinheira. Adoro o bacalhau com natas que ela faz, que é divinal", conta à Notícias TV. João Rolo completa: "Gosta imenso de fazer comida no forno, sobretudo peixes assados." No seu menu só entra comida saudável, como salienta o estilista: "Ninguém vai ver a Fátima a comer fast food, assim como aos filhos dela."

Fã de caminhadas, "adora andar a pé, fazer exercício físico" e não inicia um programa sem meditar: "Ela medita sempre quando está na maquilhagem. Interrompia-a várias vezes a dizer que ela apanhava o autocarro para Zen e que não estava ali. Uma vez fizemos uma sessão de meditação os dois e tiveram de nos separar, porque não parávamos de rir. Juntos parece que temos para aí 15 anos", observa Nuno Eiró, destacando que a colega não o deixa dormir em viagens: "Quando fazemos o Somos Portugal não posso adormecer no carro, porque ela vem para o programa como quando somos miúdos e vamos para as excursões, sempre em alegria. Às vezes até está mal da voz e diz que não pode falar muito, mas somos nós a dizer para se calar, porque ela não para", diz.

Com um gosto musical "muito diversificado" gosta de ouvir Luísa Sobral ou Beto, entre outros, e não nega um pezinho de dança. "Quando tem essa predisposição, dança desgovernadamente, não pela técnica, mas com a alma. Aliás, ela é uma mulher de alma", conta Nuno Eiró. Falta-lhe é jeito para trabalhos manuais: "Tem pouco jeito para tudo o que envolve bricolage ou trabalho de mão. Mas não se pode ser brilhante em tudo", brinca João Patrício.

"Muito ligada à família", Fátima Lopes tem dois filhos, Beatriz, de 14 anos, fruto de uma relação anterior, e Filipe, de 5 anos, fruto do casamento com Luís Morais. "É uma mãe muito atenta, presente, mas gosta que os filhos vivam as coisas. Não lhes corta as pernas." Para o amigo João Patrício tem um defeito: "Gostava de que a Fátima olhasse para ela como o resto do país olha. Agora está melhor, a idade trouxe-lhe a segurança. Mas gostava de que ela não tivesse dúvidas daquilo que representa e daquilo que tem, que acreditasse ainda mais nela", remata.

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