Seinfeld tem 500 pares de ténis brancos e andou na apanha da banana em Israel
Ana Filipe Silveira
07.JUL.2014

Filho de judeus, Jerry Seinfeld sempre soube que queria fazer stand-up. A estrela de Seinfeld, série que se estreou há 25 anos, é hoje o maior colecionador individual de Porshes. São 500 "bombas" guardadas numa garagem.

Joe Namath foi, durante a década de 1960, um êxito entre os jovens de então. O jogador de futebol norte-americano pertencia aos New York Jets, curiosamente a mesma equipa que, há cerca de um mês, emprestou o seu centro de treinos à seleção portuguesa para que esta se preparasse para o Mundial no Brasil. À época, mais precisamente em 1965, o comediante Bill Cosby protagonizava I Spy, tornando-se alvo de fúria por parte de alguns espectadores da série, principalmente no Sul dos EUA, por ser um afro-americano a fazer de protagonista.

Nessa altura, Jerome Allen Seinfeld tinha 11 anos. Descendente de judeus húngaros do lado paterno e judeus sírios do lado materno, o jovem tinha Namath e Cosby como seus ídolos. A influência que estes tiveram em si ainda hoje se faz notar: foi por causa deles, que em comum tinham apenas a paixão pelo calçado branco, que Seinfeld tem atualmente uma coleção de cerca de 500 pares de ténis dessa cor. "Eles eram os meus ícones de moda", explicou o protagonista e coautor de Seinfeld, a sitcom que se estreou na NBC faz amanhã 25 anos.

Jerome Allen Seinfeld nasceu a 29 de abril de 1954 em Brooklyn, Nova Iorque, mas mudou-se ainda pequeno para Massapequa, em Long Island. "O nome desta cidade é indígena e significa qualquer coisa como "perto do centro comercial"", brincou o comediante. A ironia sempre fez parte da sua vida, não só incentivado pelos programas de televisão que devorava mas também pelo pai, Kálmán Seinfeld, que tinha um apurado sentido de humor.

Como descendente de uma família de judeus respeitantes das tradições e preceitos religiosos, Jerry Seinfeld passou dois meses no kibbutz (comunidades agrícolas) Sa"ar, no Norte de Israel. Tinha 17 anos e a experiência não foi das melhores. "Os bons rapazes de Long Island não gostam de acordar às seis da manhã para irem apanhar bananas. A essa hora devíamos estar a dormir! E, já agora... bananas?", recordou mais tarde.

Já em 1997, um repórter do diário israelita Yediot Aharonot conversou com quem partilhou com o comediante aqueles dias na Terra Santa. "Era um rapaz magro e sério, que usava sempre calças de ganga, mas que passava os dias a dizer piadas que só os amigos norte-americanos entendiam", lembraram.

De regresso aos EUA, ingressou na Universidade de Queens no curso de Representação. Porém, e porque nunca lhe passou pela cabeça fazer qualquer outra coisa que não stand-up comedy, começou a apresentar-se em clubes noturnos. Depois de ter participado em Benson, em 1979 - e ter sido dispensado sem qualquer justificação -, surgiu a sua oportunidade. Em maio de 1981, o sucesso no circuito de stand-up levou-o, pela primeira vez, ao The Tonight Show com Johnny Carson. Seria a primeira de muitas participações em talk shows televisivos.

A ideia da série que o levou dos EUA ao resto do mundo surgiu já no final da década de 1980 enquanto conversava com Larry David. Começou por se chamar The Seinfeld Chronicles, depois apenas Seinfeld, que apelidou de "uma série sobre o nada". O resto é história: nove temporadas e 180 episódios emitidos entre 1989 e 1998, firmando-se como uma das sitcoms mais rentáveis de sempre (só as repetições renderam 2,2 milhões de euros).

Casado desde 1999 com Jessica Seinfeld, de quem tem três filhos, Jerome Allen Seinfeld nunca mais deixou o mundo da comédia. Fã da personagem Super-Homem, diz que se alimenta do que vê e ouve no seu dia-a-dia e que os filhos são a sua principal fonte de inspiração. "Fazer stand-up é a minha missão. O meu objetivo é simplesmente ter piada, por mim mesmo, perante uma sala cheia de estranhos", disse.

Um objetivo concretizado e que lhe valeu uma fortuna avaliada em 600 milhões de euros. "A sério? A minha atuação vale assim tanto?", brincou, há quatro anos, quando questionado sobre o valor dos bilhetes para os seus espectáculos (cerca de 150 euros cada). Não admira, pois, que a sua garagem esteja recheada de Porsches. No total, 50! Aliás, o comediante é simplesmente o maior colecionador individual destes automóveis. Entre estes, encontra-se uma verdadeira relíquia: é dele o primeiro modelo 901, que apelidou carinhosamente de First (primeiro), e o último dos "verdadeiros" refrigerados a ar, ou seja, o último 993 - que chamou de Last (último). "Eu tenho um Porsche Speedster de 1957, e adoro sentar-me lá dentro apenas para ouvir o som da porta a fechar e a abrir. Faz um "cluh-click-click"... Eu vivo para ouvir o som dessa porta", reconhece.

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