De que forma o FBI "policia" a ficção nos Estados Unidos
Ana Filipe Silveira
30.JAN.2015

Fizemos as perguntas, os serviços secretos internos dos EUA responderam. A colaboração entre profissionais da televisão e os agentes é, acima de tudo, uma forma de garantir que a imagem do FBI não seja deturpada.

A série The Americans é apenas um dos casos mais recentes. Na verdade, são várias as produções televisivas nos EUA que recorrem à ajuda do FBI e da CIA. Revisão de guiões, cedência de imagens de arquivo ou mesmo participação de agentes reais são apoios fornecidos por estas agências em formatos nos quais estão representadas. No FBI, o departamento encarregado destas matérias é o mesmo que faz a divulgação, para o país e além-fronteiras, dos fugitivos e terroristas mais procurados e das crianças desaparecidas. Um trabalho, explica à Notícias TV a responsável Susan McKee, que tem como objetivo ajudar a que o que chega aos espectadores seja o mais fiel possível à realidade.

"A confiança que o público norte-americano tem no FBI é importante para o nosso sucesso operacional, uma vez que contamos com ele para nos dar pistas e dicas que nos ajudem a resolver crimes. A forma como somos representados nos media mais populares tem um efeito poderoso sobre a perceção pública do FBI e dos seus agentes", começa por dizer à nossa revista. "Ao trabalharmos em estreita colaboração com os produtores, levando-os a entrar em contacto com os nossos especialistas ou, no caso de temas concretos, com agentes especiais - e, por vezes, fornecendo material como imagens de vídeo -, estamos a encorajar a objetividade, a promover a precisão dos factos, a dar uma imagem positiva do FBI e, por fim, a melhorar a perceção pública que têm de nós", prosseguiu Susan McKee.

A maioria do apoio que o FBI fornece, garante, prende-se com documentários e reality shows sem argumento definido à partida para canais como Discovery, CNBC, Bio, A&E, MSNBC, CNN, ABC e CBS, bem como colaboração com escritores de argumentos para séries de ficção. Uma ajuda que surge quando estes questionam sobre questões concretas, procedimentos corretos ou referências históricas que lhes permitam tornar aquilo que é fictício mais próximo da realidade. "Em média, por ano recebemos cerca de 500 pedidos de ajuda para formatos televisivos, livros e filmes. Nós avaliamos a qualidade da escrita, o argumento e a viabilidade de cada um dos projetos. É a conjugação destes fatores que nos permite escolher a quais daremos apoio", observa a responsável.

A opção é imprescindível, garante, até porque este departamento dos serviços secretos dos EUA tem "recursos limitados", incluindo o número de pessoas que nele trabalham. "Neste momento, temos três profissionais a dar assistência a todo o género de escritores", avança Susan McKee, explicando ainda que estas três pessoas, entre os 35 mil trabalhadores da agência, são as mesmas que elaboram os anúncios relativos aos fugitivos e terroristas mais procurados e às crianças desaparecidas, porque ambas são formas de chegar aos cidadãos, uma "poderosa força multiplicadora no que se refere à aplicação da lei". "Os espectadores também são olhos e ouvidos adicionais no terreno. Eles fornecem dicas, ajudam à localização de fugitivos e de pessoas desaparecidas e tomam medidas para se protegerem a si do crime, bem como às suas famílias e à comunidade em que se inserem", justifica.

A história da série The Americans é inspirada no caso real de uma dezena de espiões russos que viveram mais de uma década em subúrbios norte-americanos, até serem descobertos pelo FBI em 2010. Protagonizada por Keri Russell e Matthew Rhys, a narrativa é vista como especial, uma vez que foi escrita por Joe Weisberg. Este ex--agente da CIA trabalhou para a agência de 1990 a 1994, e baseou o seu argumento em conversas com colegas do FBI e nas notas de Vasili Mitrokhin, antigo agente do KGB. É precisamente por ter tido acesso a informação confidencial que todos os guiões da terceira temporada, que se estreou na quarta-feira nos EUA, são sujeitos a uma revisão antes de serem filmados. O que se pretende é deixar bem longe dos espectadores detalhes sobre como os seus agentes se infiltram ou quais as suas técnicas de espionagem. Um caso que não assusta os serviços secretos internos dos Estados Unidos, principalmente porque nunca se permitem fornecer "informação classificada" nem discutir "fontes e métodos relativos a matérias de investigação ou a técnicas mais sensíveis". "Se um argumentista nos pedir informações classificadas [como secretas] ou explicações de táticas que sejam mais especiais, nós simplesmente respondemos que, nesses casos, não vamos poder ajudar", constata a chefe do departamento do FBI à Notícias TV. "Nós não sentimos sequer que haja produções mais complicadas do que outras porque nos limitamos a responder, dentro daquilo que são as nossas possibilidades, às questões que nos são colocadas", completa.

Apesar das boas intenções, o FBI - que tem este serviço desde a década de 1930 - tem estado muitas vezes na mira de críticas, que o acusam de querer controlar os media norte-americanos e de levar os espectadores a ficar com uma imagem que nem sempre poderá corresponder à verdade. As reclamações não beliscam a agência, que a elas responde que apenas oferece "dados históricos e factuais unicamente a quem os pede". Mais: os guionistas são livres de usar esses dados, contudo "não têm obrigação nenhuma" de o fazer. A exceção acontece quando as produções, seja em televisão ou em cinema, querem utilizar o distintivo verdadeiro do FBI nos seus cenários ou como adereço. "Para autorizarmos o uso do nosso distintivo oficial, temos que ver o roteiro e a descrição do FBI deve ser razoavelmente verosímil", termina Susan McKee.

O caso da CIA

A colaboração da CIA com formatos de vários tipos é feita através do Entertainment Industry Liaison (EIL), departamento encarregado desse acompanhamento. O objetivo é precisamente o mesmo do FBI. "Durante anos, profissionais da indústria do entretenimento - atores, autores, realizadores, produtores, guionistas e outros - entrarem em contacto com a CIA para conseguirem ter um maior entendimento da nossa missão. Queremos tornar mais real qualquer representação dos nossos agentes, bem como a capacidade, a ousadia e o compromisso com o serviço público que os define", lê-se no site da agência de informações norte-americana.

Homeland - Segurança Nacional e A Vingadora são exemplos de séries que recorreram aos seus serviços. Na primeira, para dar vida à personagem de Carrie Mathison, Claire Danes encontrou-se com os seus agentes. Já em setembro de 2013, quando de uma segunda visita às instalações da agência, conheceu o diretor John Brennan. "É sempre emocionante conhecer as pessoas que fazem de tudo para proteger o nosso país", disse a atriz à comunicação social. Na segunda, a colaboração com a série chegou mesmo a ultrapassar a ficção depois dos ataques ao World Trade Centre, em Nova Iorque, a 11 de setembro de 2001. Na altura, a atriz Jennifer Garner gravou um vídeo promocional para a Central Intelligence Agency norte-americana, que depois foi tornado público no site oficial da agência.

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