"Não se pode fazer TV só a pensar nos prémios"
Nuno Cardoso
26.FEV.2015

Na véspera da estreia da terceira temporada de House Of Cards, às 21.00, no TV Séries, o criador do drama político que arrebatou a crítica fala em exclusivo à NTV sobre o sucesso da trama, o talento da dupla de protagonistas, da relativa importância dos Emmys e do quão difícil é balançar poder e dever... na ficção e na vida real.

O mundo da política nem sempre é um jogo limpo. E o congressista democrata mais psicopata, cínico, mordaz, sem piedade e escrúpulos, mentiroso e corrosivo da ficção televisiva regressa já amanhã para lembrar ao mundo isso mesmo. House Of Cards, o drama político do Netflix que tem conquistado o elogio da crítica e o interesse de milhões de seguidores, regressa amanhã a Portugal com a aguardada terceira temporada ao canal TV Séries, às 21.00, apenas com um dia de diferença em relação à exibição nos EUA. Kevin Spacey, claro está, regressa como o protagonista da aclamada série, na pele de Francis Underwood, numa fase em que consegue, finalmente, o que sempre desejou: chegar ao cargo de presidente dos EUA, num caminho que se revelou quase sempre implacável e sujo.

O que muda em House Of Cards agora que Francis chegou à Sala Oval da Casa Branca? Há muitas questões a precisar de resposta no regresso da trama. A terceira temporada promete responder a todas, segundo explica em entrevista exclusiva à Notícias TV Beau Willimon, o criador e produtor executivo da série baseada no formato britânico homónimo que a BBC emitiu nos anos 1970, inspirado na obra de Michael Dobbs.

"Só existe uma forma de descobrir, que é ver a temporada [risos]. Não gosto de revelar grandes pormenores sobre as temporadas antes de elas se estrearem, mas muitas pessoas me perguntam o que vai acontecer ao Francis neste novo cargo. Agora que ele conquistou este nível de poder, pelo qual sempre lutou, ao lado de Claire [a mulher, interpretada por Robin Wright], e ao longo dos últimos dois anos, o que vai ele fazer com esse poder? Quando se está no topo da montanha, quão mais alto ainda se consegue subir? Ou só resta um único e inevitável caminho, que é descer? Ou luta-se pela vida para se manter no topo? São estas as questões que o público tem feito e que, com certeza, vão ter respostas com os novos episódios", conta o homem forte por trás da série norte-americana.

E o que será diferente para Claire, a sua mulher e cúmplice na hora de manipular e aniquilar inimigos e ameaças? Irá ela manter-se a seu lado ou irá a Casa Branca abanar o seu casamento? "Não vou estragar surpresas. Mas se há algo que toda a gente sabe sobre os Underwood é que eles são um casal incrivelmente poderoso com uma união que torna cada um deles mais forte. Um mais um não equivale a dois no que toca aos Underwood. E por isso, assim como tem sido até aqui, a sua relação vai continuar a ser um elemento central do enredo", frisa o também argumentista do filme Os Idos de Março, com George Clooney, pelo qual foi nomeado para um Óscar.

Uma coisa é certa: a terceira temporada vai manter o nível de surpresa e de reviravoltas a que estão habituados os cinco milhões de norte-americanos que não perdem a série. "O nosso objetivo constante é o de manter os espectadores sempre em suspense e agarrados ao ecrã. Podem esperar muitas mudanças e surpresas ao longo da nova temporada. Quero que cada momento, cada cena de House Of Cards seja inovador, marque a diferença na indústria. E foi assim também com as primeiras duas temporadas", acrescenta em entrevista por telefone o norte-americano de 37 anos que tem um fascínio pelo mundo político desde sempre: na viragem do milénio trabalhou como guionista em campanhas para o Senado de Charles Schumer, Hillary Clinton e para as campanhas presidenciais de Bill Bradley e Howard Dean.

A importância de Spacey e Wright

A cavalgar na primeira fila, rumo ao êxito mundial, estão nos principais papéis Kevin Spacey e Robin Wright, que, conta o criador, têm sido um elemento fundamental no terreno conquistado até aqui. "Sou um autêntico privilegiado por poder trabalhar com estas duas pessoas que são tão talentosas, que se esforçam ao máximo e que se interessam e têm opinião a dar em relação ao rumo que a história deve seguir e às suas personagens. São dois líderes nos cenários de gravações. Eles inspiram todos os elementos da nossa equipa, e a mim ainda mais. A nossa colaboração profissional é maravilhosa, estamos constantemente em diálogo sobre o argumento e as diferentes opções que podemos seguir no futuro. Tanto o Kevin como a Robin tornaram-se dois bons amigos. Sou um homem sortudo por poder dizer isso, ter esta dupla na minha vida em termos pessoais e profissionais", revela, orgulhoso, Beau Willimon.

O mesmo responsável acrescenta que só se cruzou uma vez com o ator e que nunca tinha conhecido a atriz, ambos primeira escolha para os seus papéis nesta série. "Conheci o Kevin há muitos anos quando ele estava dedicado ao teatro. Houve uma palestra sobre argumentação e ele foi falar para uma plateia de vários escritores. Foi enriquecedor a coragem que ele nos deu para continuarmos a escrever e o discurso que fez sobre a importância da dramaturgia, para a sociedade no geral e para a própria vida dele. Foi uma inspiração e é fantástico estar com ele de novo passado tanto tempo. Spacey foi-me sugerido por David Fincher (produtor executivo de House Of Cards), com quem tinha trabalhado nos filmes Os Sete Pecados Mortais e A Rede Social", revela à NTV, sobre o ator que interpreta o presidente que tem somado eleitores atrás de eleitores pelos quatro cantos do mundo.

"Quanto à Robin [Wright], nunca a tinha conhecido pessoalmente, embora já fosse um grande fã do seu trabalho. Quando chegou a altura de escolher a atriz para o papel de Claire, o primeiro a ser escolhido para esta série, o Eric Roth (produtor de House Of Cards), falou-me nela, porque ele escreveu o filme Forrest Gump, no qual entrou a Robin. O David Fincher também mencionou o nome dela, com quem tinha trabalhado em Os Homens Que Odeiam as Mulheres", diz à NTV.

Um êxito que surpreendeu a equipa

Já lá vão dois anos desde que House Of Cards agarrou a crítica e o público e se transformou numa máquina de fazer dinheiro para o Netflix, a plataforma de visualização de conteúdos televisivos que está a dar uma dor de cabeça às estações de TV com este "inesperado" sucesso.

Mas quem também não esperava um resultado destes, às portas da terceira temporada, foi o próprio criador, apesar da confiança que tinha no produto. "Nunca imaginei este nível de sucesso, nem nos meus maiores sonhos. É óbvio que tínhamos grandes expectativas porque achávamos que tínhamos ali uma série bem feita. Tínhamos esperança de que muita gente gostasse. Mas no que toca a séries, nunca se sabe qual é o feedback até à estreia. Acho que nenhum de nós podia ter imaginado esta resposta exacerbadora a House Of Cards, não só nos EUA mas também fora. Uma das coisas que me entusiasmam mais no êxito da série é que existem lugares literalmente em toda a parte do mundo em que tenho feedback e de onde me enviam tweets. Recebo muito feedback de Portugal. Há muita gente que comunica comigo via Twitter. E aqui estou eu, a falar com um jornalista português ao telefone que só me está a entrevistar porque há pessoas que gostam da série, do outro lado do Atlântico. Deixa-me entusiasmado e com orgulho saber que algo em que trabalhamos ao longo do ano inteiro alcança os quatro cantos do mundo", conta Willimon.

"Se me recordo do momento exato em que se fez o clique e pensei "bom, isto vai mesmo ser um sucesso"?", ri-se o criador da trama que já venceu três Emmys. "Foi tudo tão rápido! A série teve críticas excelentes dias antes de a primeira temporada arrancar no Netflix. Foi exacerbante. Havia um grande buzz pelos media, muitas reportagens estavam a ser escritas, também pela estratégia que usamos de disponibilizar a temporada inteira num só dia naquela plataforma. Além disso, começámos a receber um enorme feedback dos fãs. Embora eu não tivesse números específicos, a indicação que o Netflix nos dava era de que muita gente estava a aceder ao serviço para ver a série. Naquela primeira semana de estreia de House Of Cards percebemos que tínhamos ali qualquer coisa de especial nas nossas mãos. Isso só nos desafiou a tentar fazer uma temporada melhor do que a anterior e estou a fazer figas para que isso tenha acontecido com esta terceira", revela Beau Willimon.

Obama, o fã da série mais famoso Mas não o mais importante

O presidente norte-americano, também ele um democrata como Francis Underwood, já confessou ser um fã da série que mostra o lado sujo da política. O criador ri-se quando se fala em Obama. "Não sabíamos de início, mas estávamo-nos sempre a perguntar: "Será que o presidente já viu?" Isto porque sabemos que ele é um fã de televisão. E por falar nisso, Obama tem sido um grande apoiante público de imensas séries, o que é fantástico para a indústria. Quando ele escreveu um tweet sobre House Of Cards, ficámos muito contentes. Não só o Twitter dele chega a milhões e milhões de pessoas, como é maravilhoso pensar que uma das pessoas mais poderosas do mundo retira algumas horas da sua agenda caótica para ver algo que fazemos", frisa, com orgulho. Contudo, adverte logo de seguida: "Mas para mim qualquer fã, qualquer pessoa que gosta do nosso programa é igual. Se me perguntar, Obama é um homem especial, assim como qualquer outro que dispensa 36 horas para ver as duas temporadas. Se não fosse por cada uma dessas pessoas, não tínhamos uma série de êxito. Na minha visão, um fã português, chinês, francês, alemão, australiano ou de qualquer parte do mundo é tão importante como o presidente", atira, sem rodeios.

Quanto aos prémios, também não se deixa deslumbrar. "É difícil fazer uma série de TV, uma peça de teatro, um filme. É difícil fazer o que quer que seja a este nível. Mas são um reconhecimento que sabe bem. Nunca se pode contar com eles, contudo. Não deve ser a única razão pela qual se acorda de manhã, o próprio trabalho devia ser essa recompensa. Não se deve fazer TV só a pensar nos prémios. A ideia não é andar aqui a perseguir galardões. Digamos que eles são apenas a cereja no topo do bolo, ainda que seja uma cereja bem deliciosa", afirma, entre risos, o criador. "Mas não me interpretem mal, aceito os prémios com o maior dos gostos, atenção!"

E na vida real, também vale tudo no mundo da política?

Manipulação, mortes, chantagem, ameaças, cinismo, mentira, corrupção. Vale tudo no jogo de Francis Underwood para chegar ao topo. E na política da vida real, será também assim?

"Sim e não", diz Beau. E explica: "Para alguns, vale tudo, sim. Obviamente que matar não é muito comum [risos] como na série. Acho que a maioria das pessoas pelo mundo que concorrem ao cargo de presidente fazem-no pelas melhores razões, para servir o seu país. Mas muitas vezes deparam-se com a oportunidade de ganhar mais poder, e esse lado é uma fama bastante sedutora. O problema é balançar o seu próprio desejo pelo poder e pelo dever. E neste espectro as pessoas colocam--se nos mais variados pontos. Francis está claramente na ponta, do lado do poder. Acho que uma das coisas mais complexas no Francis é que ele não tem limites para alcançar o que quer e não se preocupa com ninguém. Mas ao mesmo tempo mostra--nos um método infalível para a progressão, ele realmente consegue tudo o que quer. Mas será que os meios justificam os fins? Não tenho certamente a resposta para isso, mas uma coisa é certa: House Of Cards expõe essa pergunta e deixa o público a pensar nela", remata. Amanhã, pelas 21.00, no TV Séries, já sabe: é então hora de recomeçar a pensar.

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